17/Jul/2009

BALSEIRAS (Sítio das)

"Balseira"
(Foto do autor)

BALSEIRAS – Segundo o Elucidário Madeirense, o termo «balseira» designa, «a associação da vinha e de certas arvores, de ordinario, os castanheiros». E ainda mais acrescenta o mesmo Elucidário que, era um «sistema de apoiar ou enlaçar a vinha sobre as arvores» […] «hoje abandonado, mas existiu em toda a costa do norte antes do aparecimento do Oidium Tuckery nos vinhedos da ilha». Antigamente a cultura da vinha na Madeira, fazia-se de uma maneira geral em duas formas dissemelhantes: em «balseiras» na vertente norte e em «latadas» na vertente sul.



Sítio das Balseiras - Curral das Freiras
(Foto do autor)

A prática do cultivo e condução da vinha por «balseiras», segundo Alberto Vieira (História do Vinho da Madeira, 1993), era comum no lado norte da ilha, «antes das devastações causadas pelo oídio, as vinhas eram presas aos numerosos castanheiros, e podiam crescer até qualquer altura, ou então eram deixadas crescer à vontade, por cima das rochas e pelo chão», mas o aparecimento deste fungo (Oidium Tuckeri ou Uncinula necator), capaz de infectar as videiras, «a maioria das árvores foi destruída pela mangra e quando as vinhas foram plantadas de novo, foram colocadas de modo semelhante ao das do lado sul da ilha», ou seja, em «latada».




Curral das Freiras, visto do Miradouro da Eira do Serrado
(Foto do autor)

No Curral das Freiras, igualmente, parece que se praticava a condução da vinha pelo mesmo processo das «balseiras», onde se perpetuou num nome de um sítio desta mesma freguesia – o sítio das Balseiras.
Rodeada pelo “Maciço Montanhoso Central” da Madeira, esta freguesia, dotada de um microclima próprio, foi o vinho de abundante produção, para além da cereja, da castanha e da cidra, segundo o Elucidário Madeirense.



Sítio das Balseiras - Curral das Freiras
(Foto do autor)

O sítio das Balseiras localiza-se a sul do Curral das Freiras, também conhecido por Curral de Baixo, na margem direita da a Ribeira dos Socorridos, próximo do sítio da Terra Chã, a cerca de 400 metros de altitude.
A 6 de Março de 2001, neste mesmo sítio, um movimento de vertente que teve o seu inicio, entre o Pico do Cavalo, Passo de Ares e o Pico do Serradinho, a cerca de 1410 metros de altitude, aliado à elevada precipitação, transformou-se num fluxo aquoso detrítico que soterrou e arrasou várias habitações, junto à foz do ribeiro que lhe é adjacente, onde ficaram desalojadas cerca de 50 pessoas.
Por este sítio, une-se por vereda o Curral das Freiras, à freguesia e sede do concelho de Câmara de Lobos, passando pelo sítio da Boca dos Namorados (1040 m de altitude) e pela freguesia do Estreito de Câmara de Lobos.



Curral das Freiras, visto do sítio da Boca dos Namorados
(Foto do autor)

Durante muito tempo, conceituados especialistas consideravam que o Curral das Freiras, situado no interior da Ilha da Madeira, assentava «no fundo da cratera dum extinto vulcão». Actualmente, não é essa a mesma premissa de outros estudiosos do vulcanismo insular. O Curral das Freiras visto do Miradouro da Eira do Serrado (1053 m de altitude), parece de facto uma cratera, mas observado do outro lado da Boca dos Namorados, não é mais (?) que um grande vale de erosão. É, ainda maior esta sensação, quando o nosso olhar percorre o mesmo do cimo do Pico Ruivo, a 1862 metros de altitude.



Curral das Freiras, visto do Pico Ruivo
(Foto do autor)



A condução da vinha na Madeira




Litoral norte da Madeira - Vinhas
(Foz da Ribeira do Porco - Boaventura - Foto do autor)

Na Madeira, o método de condução da vinha ostentava dissemelhanças relacionadas com a localização da plantação no espaço geográfico da ilha. Antigamente, na costa norte, os métodos de condução utilizados eram as «balseiras», onde árvores serviam de tutores, sendo as mais usadas, o castanheiro, o carvalho, a faia e o loureiro. Na costa Sul, a vinha era conduzida pelo método de «latada».


Latada
(Estreito de de Câmara de Lobos - Foto do autor)

Presentemente na Madeira, o processo de condução da vinha mais utilizado é o de «latada» (pérgola). Com este método, as vinhas são conduzidas horizontalmente sobre arames e suspensas do chão por estacas. A altura da «latada» varia entre os 1 e os 2 metros e as densidades de plantação e segundo o Instituto do Vinho da Madeira, varia «entre 2500 e as 4000 plantas por hectare». No século XX, foi introduzido o método de condução em «espaldeira», em terrenos com o declive pouco acentuado. Ainda segundo o mesmo Instituto, este processo de condução da vinha na vertical é utilizado em «densidades de plantação que vão dos 4000 às 5000 plantas por hectare».


Espaldeira (à esquerda) e Latada (à direita)
(Estreito de Câmara de Lobos - Foto do autor)




Bibliografia:

Dicionário Corográfico do Arquipélago da Madeira, 1934, Funchal, Padre Fernando Augusto da Silva; Elucidário Madeirense, Edição de 1946, Padre Fernandes Augusto da Silva e Carlos Azevedo; Vocabulário Madeirense, Padre Fernandes Augusto da Silva, Junta Geral do Funchal, Edição-1950; Carta Militar (Trabalhos de Campo de 1965) – Edição 1 – S. C. E. P. – 1974; Rota do Vinho da Madeira – Centro de Estudos de História do Atlântico; A Vinha e o Vinho no Espaço Macaronésico – Centro de Estudos de História do Atlântico; História do Vinho da Madeira, 1993 - Alberto Vieira; Região Vitícola da Madeira - Instituto do Vinho da Madeira.

10/Jun/2009

BALCÕES (Sítio, Pico e Miradouro dos)

Miradouro dos Balcões - Ribeiro Frio
(Ao fundo, a Penha d' Águia - Foto do autor)

BALCÕES - Segundo o Padre Fernando Augusto da Silva, no seu opúsculo “Vocabulário Madeirense”, editado em 1950, pela Junta Geral do Funchal, o vocábulo balcão significa «mirante ou um mostrador dos estabelecimentos de venda». Um «mirante», segundo o Dicionário de Língua Portuguesa, 5ª Edição, da Porto Editora, é o mesmo que, «miradoiro ou miradouro (do latim - mirante)».
Na Ilha da Madeira, devido à sua constituição geológica aliada às altitudes, existem muitos mirantes naturais, conhecidos popularmente por balcão ou balcões. Alguns, são precedidos pelo nome do lugar onde se situam geograficamente, constituindo-se em topónimo. Por balcão ou balcões, são designados os lugares com características espontâneas de miradoiro ou miradouro.


Cabeço da Lenha - Balcões
(No cimo e à esquerda, o Pico do Areeiro - Foto do autor)

Igualmente, também são conhecidos por balcão ou balcões na Madeira, as partes dos logradouros das propriedades urbanas e rústicas, aonde normalmente se situa a varanda, complementada por bancos e caramanchões, para repouso e deleite dos proprietários e visitantes, a fim de observarem as vistas por vales, lombos e lombadas, assim como, por ruas, estradas, caminhos e veredas, que as circundam. Neste contexto, o termo balcão poderá ser sinónimo de varanda.


Balcão
(Foto do autor)

No «Funchal Antigo», segundo o Elucidário Madeirense, a «igreja que tomou por orago Nossa Senhora da Conceição, vulgarmente Nossa Senhora do Calhau, destruída pela aluvião de 1803, já em 1508 estava edificada na margem esquerda da ribeira de João Gomes» […], e «para leste dessa igreja estavam as ruas dos Balcões e de Santa Maria, esta menos extensa provavelmente do que agora é, mas com muitas casas grandes e bem construidas: em que residiam vários fidalgos e homens abastados». Desconhecemos se o nome desta rua, do «Funchal Antigo», possivelmente localizada próximo do antigo Campo de D. Carlos ou do Almirante Reis, hoje Jardim do Almirante Reis, teria alguma relação com as «casas grandes e bem construídas», provavelmente por terem opulentas varandas (ou balcões), ou por existirem estabelecimentos comerciais.



Chão dos Balcões ou Chão da Lagoa (ou das Lagoas)
(Visto do Pico dos Esteios - Serras de São Roque - Funchal - Foto do autor)

Na Madeira, poderemos dar como exemplos de topónimos com o vocábulo «balcões»: o sítio e miradouro dos Balcões, localizado no Ribeiro Frio; o sítio do Chão dos Balcões, actualmente mais conhecido por Chão da Lagoa (ou das Lagoas), no Montado do Barreiro (Parque Ecológico do Funchal); e o Pico dos Balcões, no Paul da Serra, onde analogamente próximo deste ocorre as nascentes conhecidas, por Fontes dos Balcões.
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Vale da Fajã da Nogueira - Ribeira da Metade (ou da Ametade)
(Miradouro dos Balcões - Foto do autor)

Situado cerca de 15 Km da cidade do Funchal, o sítio do Ribeiro Frio, atravessado pelo ribeiro do mesmo nome, e na margem da vereda que percorre a Levada da Serra do Faial, também conhecida por Levada do Furado, encontra-se um miradouro, a cerca de 800 metros de altitude, onde denominam por Balcão ou Balcões. Aqui, desfruta-se duma surpreendente paisagem sobre a Ribeira da Metade (ou da Ametade) e o vale da Fajã da Nogueira, assim como, parte do "Maciço Montanhoso Central" da Madeira. A sudoeste e a montante deste, e próximo do sítio do Cabeço da Lenha, a norte da Achada Grande, localiza-se o sítio dos Balcões, a cerca de 1419 metros de altitude, com as características naturais de mirante, igualmente, sobre a vertente norte da Madeira.


Pico dos Balcões (ao centro), visto do Pico da Selada
(À direita, Estrada do Fanal - Foto do autor)

No Paul da Serra e à esquerda da estrada que se dirige para o Fanal, próximo do sítio do Rabaçal, entre as ribeiras: dos Cedros, da Água da Negra e do Risco, afluentes da Ribeira da Janela, encontramos o Pico dos Balcões, a cerca de 1249 metros de altitude, de onde se alimenta na sua base, a Levada Nova do Rabaçal (ou das Vinte e Cinco Fontes). A Levada Nova do Rabaçal, tem origem na Ribeira dos Cedros, à cota de 990 metros. São seus afluentes, as designadas Vinte e Cinco Fontes, e as captações das ribeiras anteriormente citadas, da Água da Negra e do Risco.


Ribeiras: dos Cedros, da Água da Negra e do Risco
(Rabaçal - Foto do autor)


Levada Nova do Rabaçal
(Ou das Vinte e Cinco Fontes - Foto do autor)





Bibliografia:

Dicionário Corográfico do Arquipélago da Madeira, 1934, Funchal, Padre Fernando Augusto da Silva; Elucidário Madeirense, Edição de 1946, Padre Fernandes Augusto da Silva e Carlos Azevedo; Vocabulário Madeirense, Padre Fernandes Augusto da Silva, Junta Geral do Funchal, Edição-1950; Dicionário de Língua Portuguesa, 5ª Edição, da Porto Editora; Carta Militar (Trabalhos de Campo de 1965) - Edição 1 – S. C. E. P. – 1974.

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