24/06/2007

Clima do Arquipélago da Madeira


Furacão no Atlântico
(Ciclone ou Centro de Baixas Pressões - Foto by web )

Introdução e Generalidades

O Arquipélago da Madeira, situado geograficamente numa região subtropical, o seu clima resulta da influência conjunta de vários factores externos e outros regionais. Entre os primeiros, merecem especial alusão a situação oceânica (a influência da corrente do Golfo e a corrente das Canárias), a latitude, os centros anticiclónicos continentais (do Noroeste de África e da Europa Ocidental), o anticiclone dos Açores e os sistemas frontais associados aos centros de baixas pressões da Frente Polar.

Anticiclone dos Açores
(Foto by web)

De todos estes factores externos, o anticiclone dos Açores é o que condiciona mais o clima do Arquipélago da Madeira. A sua presença determina situações de calma atmosférica, céu limpo, ou com nuvens de fraco desenvolvimento vertical, sem capacidade para originar chuvas. Este núcleo de altas pressões desloca-se para sul do Arquipélago dos Açores no Inverno e no Verão concentra-se a norte. A sua “posição média anual” é a sudoeste deste Arquipélago. Contudo, não havendo regra sem excepção, qualquer mudança deste provoca o aparecimento de outros factores, que podem influenciar ou mudar as condições atmosféricas no Atlântico.

Madeira - Vertente Norte - Seixal - Praia da Laje
(Foto do autor)

Assim, no Inverno, alguns sistemas depressionários que atravessam o Atlântico, influenciados pelo anticiclone da Europa Ocidental ou pela Frente Polar, descem até à latitude da Madeira, formando-se depressões entre o arquipélago e Portugal Continental, podendo provocar precipitação abundante. Além disso, estas oscilações do anticiclone dos Açores, por vezes levam a que se active o anticiclone do Noroeste de África, que estimulando ventos vindos do quadrante de leste ou este, cria condições para que o Arquipélago tenha o chamado “tempo de leste”, até mesmo no Inverno. Por outro lado, podemos dizer que o anticiclone dos Açores é responsável por bom tempo no Verão e no Inverno no Arquipélago da Madeira.

Madeira - Vertente Sul - Ribeira Brava
(Foto do autor)

Dos factores regionais que influenciam o clima da Madeira, do Porto Santo e das Selvagens, os mais relevantes são o relevo, a altitude, os ventos predominantes de nordeste (os alísios) e a exposição da radiação solar nas vertentes norte e sul – no caso da Ilha da Madeira.

Porto Santo - Complexo Montanhoso
(Foto do autor)

Assim, o complexo relevo da Madeira determina a existência de muitos microclimas, de características diferentes entre si. Pelo contrário, o relevo pouco acentuado do Porto Santo e das Selvagens, estabelece que nestas ilhas tenham um clima quase único e imutável.

Madeira - Maciço Montanhoso Central
(Foto do autor)

Perante todos estes factores, o clima no Arquipélago da Madeira é ameno, tanto no Inverno como no Verão, excepto nas zonas mais elevadas da Ilha da Madeira, onde se observam as temperaturas mais baixas. Por outro lado, atendendo aos preceitos de classificação presentes, o clima desta mesma ilha, pode ser definido genericamente como sendo «temperado com características oceânicas, variando de seco a húmido e de moderadamente chuvoso a excessivamente chuvoso com o aumento de altitude».


Clima da Ilha da Madeira

Oeste da Ilha da Madeira - Rabaçal - Fonte do Bispo
(Foto, Parapente - anónimo)

Este da Ilha da Madeira - Santo da Serra - Campo de Golfe
(Foto do autor)

O clima da Ilha Madeira, segundo Machado (1970), em termos gerais, «é predominantemente temperado com características oceânicas, variando de seco a húmido e de moderadamente chuvoso a excessivamente chuvoso com o aumento de altitude. Acima dos 1500 m torna-se no entanto frio (embora no limite para temperado) e quanto à humidade do ar, volta a ser seco. Na parte norte da ilha comparativamente à parte sul, para as mesmas altitudes, o clima é sempre mais chuvoso e caracteriza-se por temperaturas mais baixas», (Carta dos Solos da Ilha da Madeira - SRA).
Ainda segundo Machado, «um outro aspecto climático peculiar diz respeito à ocorrência de uma zona de nevoeiros permanentes a altitude variável, mas cujo limite inferior se observa a cerca de 500 m durante o Inverno e um pouco mais acima durante o Verão; os cumes das altas montanhas podem contudo não estar enevoados, especialmente no Verão», (Carta dos Solos da Ilha da Madeira - SRA).
De acordo com a classificação de Thornthwaite, «o clima da Madeira varia desde semiárido (D) - apenas em três reduzidas áreas do litoral sul - até super-húmido (A) em direcção à região montanhosa do interior. As zonas climáticas, que no litoral norte são logo de clima húmido (do tipo 82, pelo menos), desenvolvem-se em faixas mais ou menos estreitas em geral sensivelmente paralelas à costa e acompanhando o relevo. Assim, o clima torna-se progressivamente mais húmido e mais frio com a altitude, sucedendo-se os tipos D B3' d a', C1 B3' d a' ou C1 B3' s a', C2 B2' s a',B1 B2' s a', B2B2' s a', B3B2' r a', B4B1' r a' e A B1' r a' ou A B1' s a'», (Carta dos Solos da Ilha da Madeira - SRA).
Segundo a classificação de Köppen, o clima da Madeira é «mesotérmico com chuva e sem quedas regulares de neve, na maior parte da ilha com Verão pouco quente mas extenso (tipo Csb) ou, em estreita faixa da costa sul, com Verão quente (Csa)», (Carta dos Solos da Ilha da Madeira - SRA).

Madeira
(Foto by web)

Na Ilha da Madeira, existem muitos microclimas determinados pela influência do relevo acentuado, desde a cota mais baixa até ao ponto mais alto de 1862 m (Pico Ruivo). A orientação este-oeste da cordilheira central e dos planaltos, com altitudes superiores a 1200 m, perpendicular aos ventos predominantes de nordeste, determina uma vertente sul protegida e soalheira, e uma vertente norte mais exposta, com uma insolação reduzida, excepto em algumas localidades junto ao litoral. A amplitude de variação térmica anual é relativamente fraca nas localidades do litoral, mas é mas acentuada nos picos mais altos.

Madeira - Temperatura Média Diária do Ar

A temperatura média anual do ar varia desde valores que estão acima da isotérmica (linha que une os pontos com a mesma temperatura média) dos 17,5º C no litoral da vertente norte, (mais alta na vertente sul), e até valores da ordem dos 9º C no planalto do Paul da Serra (1400 m de altitude) e nos picos mais altos da cordilheira central da Ilha (Pico Ruivo/1862 m de altitude e Pico do Areeiro/1818 m de altitude). A média anual da humidade relativa varia de 55%, junto à costa, até aproximadamente 90%, na zona dos nevoeiros. O limite inferior dos nevoeiros pode ser observado a uma altitude de 500 m (ou até menos) durante o Inverno e a uma cota superior durante o Verão (entre 700 m e os 1300 m). Acima dos nevoeiros, com a excepção das altitudes mais elevadas, a humidade pode ser menor, com um valor próximo dos 75%, (dados das publicações consultadas).

Vertente Sul - Câmara de Lobos e Funchal
(Encosta Cabo Girão - Pico do Galo - Foto do autor)

A precipitação anual na vertente sul da Ilha pode rondar os 500 mm a 650 mm, e na vertente norte 1.000 mm. Também a precipitação aumenta com a altitude nos picos mais altos e nos planaltos, ocorrendo precipitação acima dos 3.200 mm, (dados das publicações consultadas). Os ventos predominantes são os de nordeste (os alísios), e atingem o território da Ilha durante a maior parte do ano, sendo os dominantes de sul e sudoeste.

Madeira - Precipitação Anual Média

Os ventos de nordeste, húmidos, provocam as chamadas chuvas orográficas ou de relevo e nevoeiro, e os de sul, sudoeste e oeste, em “regra”, são acompanhados de chuvas ciclónicas ou frontais no Outono e no Inverno. Os ventos de norte e noroeste, e também por vezes os de nordeste, quando acompanhados de frentes frias, no período do Inverno, provocam a queda de granizo ou neve nos picos mais altos da Ilha da Madeira. Os de leste ou este, oriundos do Saara (África), acompanhados de massas de ar quente e poeiras, provocam temperaturas altas e diminuição da humidade relativa e um ar pouco respirável.

Vertente Norte - São Vicente
(Foto do autor)

Pormenorizando o clima da Madeira por localidades, genericamente poderemos ainda dizer que, o clima da Camacha bem como no litoral norte, como por exemplo Ponta Delgada, e nos lugares de média altitude das vertentes voltadas a sul, é considerado temperado, oceânico e chuvoso. Temperado, por terem temperaturas de média anual, entre os 10º C e os 20º C. Oceânico, por a diferença entre as temperaturas médias do ar do mês mais quente e o mais frio, ser inferior a 10° C e chuvoso, por a precipitação total anual ser inferior a 2000 mm e superior a 1000 mm (1961 - 1990). Alguns autores classificam este microclima, como «temperado húmido».
Em Santana, na zona das Queimadas e nos lugares de média altitude das vertentes voltadas a norte, o clima é considerado temperado, oceânico e excessivamente chuvoso. Temperado, por terem temperaturas de média anual, entre os 10º C e os 20º C. Oceânico, por a diferença entre as temperaturas médias do ar do mês mais quente e o mais frio, ser inferior a 10° C e excessivamente chuvoso, por a precipitação total anual, ser superior a 2000 mm (1941 - 1970).

Pico do Areeiro
(Foto, Madeira Arquipélago)

No Pico do Areeiro (1818 m de altitude), e nos lugares de altitude superior a 1500 metros, onde se registam temperaturas de média anual, entre os 0º C e os 10º C, o clima é considerado frio. Igualmente, é oceânico, por a diferença entre as temperaturas médias do ar do mês mais quente e o mais frio ser inferior a 10º C e excessivamente chuvoso, por a precipitação total anual, ser superior a 2000 mm (1961 - 1990).
Finalmente no Funchal e em quase todo o litoral sul, o clima é temperado oceânico e moderadamente chuvoso. Alguns autores classificam este microclima como «temperado quente e seco ou subtropical seco», (dados das publicações consultadas).



Funchal
Temperaturas Médias Anuais - Máximas e Mínimas - Precipitação Total
(Fonte, Instituto de Meteorologia)

Dados climatológicos do Funchal, recolhidos pelo Instituto de Meteorologia, referidos ao período 1961-1990, numa estação meteorológica a 58 m de altitude, indicam que o valor da média anual da temperatura máxima foi de 21,9º C/Ano, e que o valor média anual da temperatura mínima foi de 15,5º C/Ano. A média entre estes valores da média anual da temperatura máxima e da média anual da temperatura mínima é de 18,7º C/Ano. Assim esta temperatura média anual situa-se entre os 10º C e os 20º C, facto que se pode qualificar este clima como temperado. Por outro lado, a diferença entre as temperaturas médias do mês mais quente (Setembro - máxima - 25,7º C e mínima - 18,9º C) e o mais frio (Fevereiro - máxima - 19,1º C e mínima - 12,7º C), é inferior a 10º C, pode caracterizá-lo como oceânico. A precipitação anual total foi de 641 mm/ano, face a este período, pelo que podemos classificar o Funchal de ter chuva moderada.


Funchal -Temperatura do ar - Precipitação
(Fonte, Instituto de Meteorologia)
.
A cidade capital da ilha, apresenta uma humidade relativa média anual de 70%, (entre um mínimo de 68%, em Março/Abril, e um máximo de 73% em Junho/Julho). O Funchal tem aproximadamente 2400 h de sol por ano, (dados das publicações consultadas).
Os meses com maior insolação foram Julho e Agosto e os com menor foram Janeiro e Dezembro. Contudo, nestes mesmos últimos meses, podem registar-se uma exposição solar acima das 140 horas, (ver figura seguinte).
A velocidade do vento pode corresponder a um vento moderado (calma: 11%), com uma frequência que pode chegar aos 16% e 17% de nordeste e os 17% ou 18% de sudoeste, (ver figura seguinte).

Funchal - Insolação - Vento - Valores Médios Anuais
(Fonte, Instituto de Meteorologia)



Clima da Ilha do Porto Santo


Vertente Sul - Porto Santo
(Foto do autor)

A latitude subtropical e a proximidade da costa noroeste africana, tal como a Ilha da Madeira, determinam as características do clima da Ilha do Porto Santo. Considera-se genericamente de temperado, oceânico com pouca chuva (alguns autores classificam-no como «temperado quente e seco ou subtropical seco»).
As características deste clima devem-se, além da posição geográfica da ilha, também ao seu relevo pouco acentuado. Este, agrupado em dois maciços distintos, orientados no sentido sudoeste/nordeste e separados por uma vasta área quase plana, não funcionam como barreira natural de condensação aos ventos predominantes do quadrante norte, carregados de vapor de água do Oceano Atlântico. A elevação mais alta do Porto Santo é o Pico do Facho, com 517 m de altitude, e está localizada a nordeste.

Porto Santo
Temperaturas médias anuais - máximas e mínimas - Precipitação total
(Fonte, Instituto de Meteorologia)

Dados climatológicos do Porto Santo recolhidos pelo Instituto de Meteorologia, referidos ao período 1961-1990, numa estação meteorológica a 78 m de altitude, indicam que (ver figura anterior) o valor da média anual da temperatura máxima foi de 20,8º C/Ano, e que o valor média anual da temperatura mínima foi de 16º C/Ano. A média entre estes valores da média anual da temperatura máxima e da média anual da temperatura mínima é de 18,4º C/Ano. Assim esta temperatura média anual situa-se entre os 10º C e os 20º C, também se pode considerar este clima de temperado. A diferença entre as temperaturas médias do mês mais quente (Agosto - máxima - 24,8º C e mínima - 19,8º C) e o mais frio (Fevereiro - máxima - 17,7º C e mínima - 13,1º C), é inferior a 10º, pode caracterizá-lo como oceânico.

Porto Santo - Temperatura do ar - Precipitação
(Fonte, Instituto de Meteorologia)

A precipitação total de média anual foi 386 mm/ano, o que de certo modo, explica a escassez de chuva e por sua vez a pouca existência de coberto vegetal na Ilha.
A humidade relativa no Porto Santo ronda os de 75 %, e caracteriza este clima de relativamente húmido, sendo maior no Inverno (cerca de 82 % nos meses de Janeiro a Março), do que no Verão (69 % em Agosto), (dados das publicações consultadas).
Os ventos predominantes sopram de norte, nordeste e noroeste, os dominantes sopram dos quadrantes sul e oeste. A velocidade do vento corresponde a um vento moderado (calma: 5,3%), com uma frequência que pode chegar aos 35% do quadrante norte, (ver figura seguinte).

Porto Santo - Insolação - Vento - valores médios anuais
(Fonte, Instituto de Meteorologia)

No Porto Santo, a insolação tem um valor muito elevado, também da ordem das 2.400 h/ano, (dados das publicações consultadas).
O mês com maior insolação foi Agosto, próximo das 250 h, e o menor foi Dezembro, onde se pode verificar uma exposição solar acima das 130 horas, (ver figura anterior).
Quanto ao conforto térmico, este é caracterizado como óptimo entre Dezembro e Abril, moderadamente quente nos meses de Maio e Novembro e quente de Julho a Outubro.

Cais da Cidade - Vila Baleira - Cidade de Porto Santo
(Foto do autor)


Clima das Ilhas Selvagens

Selvagem Grande
(Foto do autor)

Pela situação geográfica, as Selvagens sofrem a influência oceânica, “condicionadas” pelas correntes do Golfo e das Canárias, e pelos ventos alísios oriundos de nordeste. O seu clima pode ser considerado tipo «oceânico subtropical», como algumas zonas costeiras das ilhas Canárias, (outros autores classificam-no de subtropical marítimo).
A baixa altitude, não favorece a condensação e as nuvens arrastadas pelos ventos, passam sem que haja precipitação. Ocasionalmente, são afectadas por tempestades que formam no Atlântico acompanhadas de ventos provenientes de norte ou de oeste, que provocam chuvas torrenciais acompanhadas de trovoada durante algumas horas.
Por vezes, os ventos de leste e de sul precedentes do continente africano carregados de poeiras e massas de ar quente recordam a proximidade do Deserto do Saara, aumentando as temperaturas e reduzindo a humidade do ar. As temperaturas rondam os 15 e 20 graus centígrados, no Inverno.
A presença de numerosas conchas de moluscos terrestres, segundo os especialistas, indicam que no passado o clima destas Ilhas foi mais húmido do que nos dias de hoje.


***
Notas Soltas:

- Um dos fenómenos mais pitorescos do Inverno na Madeira é o facto de ser perfeitamente possível no mesmo dia nadar com temperaturas da água do mar, entre os 17º C e os 18º C , e passear nas montanhas cobertas de neve ou granizo.

Pico do Areeiro
(Foto, Madeira Arquipélago)

- Um outro no Verão, é sair do litoral com grande exposição solar, passar pela zona de nevoeiros, conhecida localmente por “capacete”, (entre 700 m e os 1500 m), apanhar chuviscos, e ao continuar a subir, voltar a apanhar sol, descobrindo várias “ilhas” acima das nuvens.

Pico da Selada - Paul da Serra
(Foto do autor)

- Um outro fenómeno raro (?) e “insólito”, que aconteceu na Madeira em 11 de Maio de 2007, foi o aparecimento de uma “neblina matinal” junto ao mar, em redor da Madeira e do Porto Santo, nevoeiro esse que os geógrafos chamam de “nevoeiro de advecção”. Este tipo de nevoeiro, em regra, só se forma com uma temperatura da água do mar muito baixa. A temperatura das correntes de superfície do mar do arquipélago, ronda em Maio os 19º C e os 20º C. Como foi possível tal fenómeno muito parecido ou igual aos nevoeiros do Golden Gate Bridge, em S. Francisco nos Estados Unidos, onde a temperatura média anual da água do mar, daquela localidade é de 14º C? Será que houve alguma ascensão da corrente de profundidade (upwelling), que tenha provocado este nevoeiro estranho, encostado ao litoral, impulsionado pela brisa marítima, não nos deixando pela "primeira vez na vida" ver o mar da Madeira? Seria influência da corrente (fria) de Canárias!? Ou será consequência das novas alterações climáticas?! A resposta fica para os especialistas!

Funchal
(Visto do Pico da Cruz, 11 de Maio de 2007 - Foto do autor)

Cais do Funchal, 11 de Maio 2007
(Foto do autor)

- Na análise do clima da Madeira, verificamos que as condições atmosféricas variam de zona para zona, da vertente norte para a vertente sul, e do litoral para os cumes mais altos. Nestes, a amplitude térmica é muito grande e as temperaturas podem ser muito baixas. Assim as temperaturas junto ao litoral são excelentes quase todos os dias, mas nas montanhas, face a determinadas condições atmosféricas, podem ser mortais. Infelizmente, a Madeira na sua recente história de ocupação humana, tem exemplos desses, e daí haver uma preocupação por parte das autoridades, designadamente na construção de Casas de Abrigo e na sinalização de percursos para os caminhantes de montanha.

Junto ao Pico Grande
(Foto do autor)

Qualquer visitante ou residente da ilha, quando procura saber as condições meteorológicas para um determinado período na Madeira, apenas consegue dados sobre o Funchal, infelizmente! Todos os órgãos de comunicação social assim o referem! Desta forma, qualquer visitante ou residente em passeio ou em trabalho, a pé ou de carro, pelas montanhas da Ilha da Madeira, não se pode esquecer dos cuidados a ter nestas circunstâncias. Quando se percorre a ilha, devemos fazer-nos acompanhar de mudas de roupa e abafos, especialmente no Inverno. Nesta estação, estes cuidados devem ser redobrados, se pensarmos em deslocações para cenários de montanha, ambientes onde é imprescindível a utilização de roupa quente e confortável, calças e casaco impermeáveis, botas e luvas. De igual modo, deve-se evitar equipamento que possa dificultar a circulação sanguínea, principalmente calçado muito apertado, dando-se ainda especial atenção ao grau de aperto das correias do apoio lombar das mochilas, das calças ou de outro equipamento. Por outro lado, devemos evitar andar com as roupas molhadas e sair dos trilhos. O visitante ou o residente nunca se deve aventurar para o desconhecido e, na eventualidade de se enganar no percurso, deve sempre dentro de determinadas condições, voltar para trás pelo mesmo caminho. Nunca nos devemos esquecer que o factor vento é uma condição relevante e com grande influência para casos de hipotermia, com temperaturas relativamente baixas, (Sensação Térmica ST).

Nuvens mais comuns nos céus do Arquipélago
(Cirros e Cumulos - Foto do autor)

O frio dificulta a circulação e, em situações extremas, pode mesmo ocorrer um défice térmico, ou seja, o corpo perde mais calor do que aquele que é capaz de produzir. Em determinadas situações, esta ocorrência pode traduzir-se num abaixamento da temperatura corporal, para valores inferiores aos 35º C e, consequentemente, a entrada num estado de hipotermia. Estado que, ao evoluir negativamente, pode conduzir a temperaturas corporais inferiores aos 32º C, hipotermia moderada, ou a valores inferiores a 27º C, originando uma hipotermia grave ou profunda. Para quem já passou um pouco por esta experiência, sabe que de um mal-estar geral do nosso corpo, pode-se passar a uma “sonolência profunda”.
Se algum leitor desejar consultar as previsões meteorológicas por localidades na Ilha da Madeira e na Ilha do Porto Santo, pode fazê-lo consultando o site do CEM - Centro de Estudos da Macaronésia - Ciências da Vida e da Terra, da Universidade da Madeira.

Pico do Areeiro
(Foto, Madeira Arquipélago)

- O clima do Funchal em particular e o da Madeira em geral, ao longo de séculos deve ter sido aquele que mais foi estudado no Mundo. Relativamente a este assunto, existe inúmeras obras de conceituados médicos e cientistas (nacionais e estrangeiros), nomeadamente nos séculos, XVIII, XIX, e XX. No Elucidário Madeirense, ao consultar-mos o artigo relativo ao “Clima”, ficamos com essa certeza. Assim não nos podemos esquecer que o turismo na Madeira nasceu como “turismo terapêutico”, e que esses mesmos estudos foram relevantes para o "êxodo" de turistas de vários países da Europa para estas Ilhas do Atlântico afim de se curarem, aconselhados por conceituados médicos dessas épocas. Desta forma, podemos dizer que a Madeira foi a primeira e principal impulsionadora do considerado "turismo actual" no Mundo. Na actualidade, pensamos que o turismo terapêutico no Arquipélago, designadamente na Ilha de Porto Santo, ainda será uma realidade. Estudos recentes assim o mencionam e o comprovam cientificamente.



Falar de clima e não falar de meteorologia é quase impossível! Assim, ao falar de meteorologia científica, não se pode ignorar a meteorologia popular.

Meteorologia Popular

Das Ilhas de Zargo


Mau tempo
(Foto do autor)

[...]
A meteorologia científica estuda os fenómenos da natureza física de todo o Universo e suas repercussões nas diferentes zonas geográficas por meio de instrumentos de precisão, rigores matemáticos e coeficientes de observatórios, estações e postos climáticos distribuídos por regiões e altitudes determinadas. A meteorologia popular toma conhecimento dos factos observando-os à luz da sua intuição, experiência e das tradições locais. Dos fenómenos telúricos, aéreos e marinhos obtém o povo lições e têxteis para melhor se conduzir na vida, tirar dúvidas e esclarecer aparentes mistérios. O povo, observador perspicaz de todos os fenómenos da natureza e de todas as manifestações extraordinárias do seu meio físico, procura investigar as origens e reflexões meteorológicas nos animais, nas plantas, nos homens, no ar e no mar.
Nas ilhas da Madeira, Porto Santo e Desertas, todos os reinos da natureza subsidiam a meteorologia popular. Entre os animais, por exemplo, desperta a atenção do povo a galinha que se imobiliza apoiada só num pé, recolhendo o outro debaixo da asa, e conclui deste facto ter aquela ave sensibilidade de barómetro, porque, sempre que a surpreende em semelhante posição, prevê humidade ou chuva.
O gado vacum, surpreendido a lamber as paredes do estábulo ou a madeira da manjedoura, anuncia chuva também.
As gaivotas, voando agrupadas em alta atmosfera, sobre as povoações, alarmando-as com o grito característico de pi-au, pi-au, e refugiando-se em terra denunciam aproximação de tempestade. Mas se o mar está de calmaria e aquelas aves baixam a poisar na sua superfície e se detêm a embalar-se na ondulação serena das vagas, mergulhando frequentemente a cabeça voltada para o mesmo ponto do horizonte, apontam o quadrante para onde vai mudar o tempo.
Outras modificações meteorológicas, presta ao homem a atmosfera: o arco-íris alongado a pouca altura do horizonte, “semicerrado como olho de boi”, é prenúncio de próximos aguaceiros. Porém, se o mesmo fenómeno se arma em meio arco a dentro de tempestade, os marítimos têm-no por “Arco-de-aliança” em pacto de bonança com o mar.
As nuvens, cúmplices do vento, são mensageiras de suas aventuras e tropelias. Assim, firmamento coberto em toda a cúpula de farrapos de nuvens, o popular céu pedrento, é prometedor de chuva ou vento do quadrante Leste, sobretudo nos meses de Agosto ou Setembro, soprando com lufadas quentes e não raro sufocantes, numa duração de dias ímpares, três, cinco ou sete.

“Pedra-de-cevar” - “palma-de-liento”
(Foto do autor)

Quando as nuvens se acumulam num corpo compacto e isolado no firmamento, chama-lhe o povo em geral “pedra-de-cevar”, mas no Funchal denominam-na “palma-de-liento” mais conforme com sua acção meteorológica a que atribuem força de desencadear ventanias.
Neblina esfrangalhada a acariciar a fase cimeira das montanhas indica tempestade quando aparece em certas elevações como no Cabo Girão, a primitiva Ponta d'Água dos pescadores, a partir de meados de Setembro. Se, se movimenta e “retoiça” de Sudoeste, traz consigo chuvas diluvianas, terríveis em terra e no mar. Durante dois a três dias, vagalhões desabridos investem contra o litoral da costa Sul da Madeira, atacando-o à pedrada roliça da maré levantada à força dos seus refluxos. Nestes furiosos embates empurram pela terra dentro embarcações e pescadores fugindo a abrigar-se em vias públicas, recantos de rochas e noutros refúgios seguros. O tempo de Sudeste, embora mais raro e menos tempestuoso, é de igual violência e façanhas, tendo como o anterior, na Madeira, odiosas tradições.
A neblina, quando vela as Ilhas Desertas, ocultando-as à vista do Funchal, é porque o mar se agita em toda a Travessa, dificultando nesta zona marítima, entre a Madeira e o Porto Santo, o tráfego de embarcações de pesca e de carreira interinsular. Se esta neblina é espessa e se alonga estirada sobre o mesmo grupo de ilhas, durante o Estio, traz por vezes lufadas de calor “sirocca” soprado do Deserto do Saará, carregado de areias voláteis, em suspensão na atmosfera, que depois se acusam nas clarabóias, nas plantas e nos domicílios, empastada em grossas gotas de chuva que sobrevém.
Neblina de Nordeste, no Porto Santo, a coroar os Picos do Facho e do Castelo, em pendor para a vertente Sul, tem-se como “guarda-avançada” do popular “Venio-de-capela”, rijo e húmido, agitado e incómodo na travessia marítima entre Porto Santo e Madeira, para navegantes e passageiros, aspergindo de aguaceiros a terra em pleno verão.
A chuva, no círculo vicioso da sua evolução natural, sobe do mar pelo fenómeno da evaporação, condensa-se na atmosfera e liquefaz-se em cordas de água sobre a terra por força doutro fenómeno meteorológico que a ciência desconhece e ninguém sabe explicar, mas transforma sua natureza de salgada em doce, “dessedenta” homens, animais, plantas e beneficia de produtos agrícolas todos os seres vivos do Mundo.
A chuva, produto de vários fenómenos naturais, oferece inúmeros prognósticos à meteorologia popular, por estes preconceitos em curso:
A Candelária (festa religiosa das Candeias, chama-se ao dia 2 de Fevereiro em que o Pároco de cada freguesia benze pequenas velas de cera natural, de 25 cm para distribuir pelos fiéis e servirem a patentear simbolicamente a fé em mãos de moribundos) - “o dia 8 de Fevereiro - se rir, o Inverno está para vir”; “mas se chora, já o Inverno anda fora”. E se chover em dia de São Brás - dia 3 de Março -? Choverá 40 dias mais. Não é raro verificar-se o acerto desta previsão.
Manhã de Páscoa molhada? Toda a fruta do ano será bichada. Porém, se der chuva em Abril? Será de natureza a encher a tulha e o barril, porque as sementeiras virão fartas de grão, e de produção abundante os vinhedos.
Falta de chuva em Agosto impede a frutificação dos castanheiros, os ouriços não se desenvolvem, as castanhas não engraecem e colhem-se chochas, falidas; o mesmo sucederá por efeito de trovões naquele mês.
O tempo de sol ou de chuva que fizer a 8 de Dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição, igual tempo se há-de ter a 25 do mesmo mês, aniversário festivo do Natal de Jesus Cristo. Outro conceito religioso afirma que a 13 de Dezembro, dia de Santa Luzia, em igualdade de tempo, é tanto à noite como o dia.
Uma tradição secular, na freguesia da Quinta Grande, afirma que, entre 20 e 23 de Dezembro, na celebração litúrgica das Quatro Têmporas do Advento, se o tempo rondar ao quadrante Oeste, abundará em chuva a Costa de Baixo, no futuro ano; se rondar a Leste, a Costa de Cima sofrerá de tempo seco e quente.
Para toda a população da Madeira é superstição arraigada que o tempo, qualquer que faça, ronda todos os anos ao quadrante Norte, à meia noite de 24 de Dezembro, aniversário do Natal de Cristo.
O vento que sopra de Noroeste ou “Nordiabo”? como lhe chamam os machiqueiros, arrepiam-se dele lavradores e navegantes com chuvas e ventanias agrestes acompanhadas de granizo, neve, trovões e frio de enregelar os ossos a que se seguem aguaceiros de degelo.
Não fogem a esta meteorologia, também, os Astros porque o povo não desconhece por experiência própria sua influência sobre a terra e sobre o mar. O sol e a lua guiam-no na agricultura e em operações domésticas e sociais. Sol afogueado antes de mergulhar no Ocidente predispõe o lavrador para bom tempo e lembra-lhe que tome o arado e chame gente; e, se enrubesce o Nascente, grita-lhe ao ouvido que pique o boi (do trilho ou do arado) e ande sempre.
É dos antigos o aforismo que não há sábado sem sol como não há domingo sem missa.
É tal a influência da lua sobre a terra que o povo tem dependente deste astro, por assim dizer, todos os reinos da natureza. A gente do mar, para Lua deitada previne-se com a maior vigilância mantendo o marinheiro de pé contra tempestades. Porque a Lua não é como pinta ou aparece, mas como quinta, isto é, como se mostra ao quinto dia, e, se ao sétimo não despinta, vai até o trinta, com bom ou mau tempo.
Ninhadas de galináceos, para nascerem fortes e robustos, devem terminar a incubação vinte e dois dias após o quarto crescente. Por isso o povo não choca ninhadas destas aves na Semana Santa, porque a lua é cheia na Sexta-feira e os ovos não têm tempo de gerar, pelo que se perdem de goros ou morrem as aves nascidas na fraqueza da lua durante a fase decorrente.
As povoações ribeirinhas do Paul do Mar e do Jardim do Mar que só se comunicam, no litoral, pela maré baixa ou vasante através do calhau, nunca saem de casa para essa travessia sem consultar a lua e se assegurarem da sua fase em preia-mar ou baixa-mar como dum cronómetro de vida ou morte. Daí esta tradicional previsão: Lua empina, maré deitada ou a subir para maré-cheia sem dar passagem franca; Lua posta, ou desaparecida, maré na costa, a maré-baixa ou vasante, com passagem aberta de inteira segurança.
A agricultura faz-se em inúmeras operações pelas fases da lua também. Certificou-se destas práticas e fenómenos lunares conhecidos e aproveitados pelo povo madeirense, o Engenheiro Agrónomo A. Tavares da Silva que organizou um vocabulário vitivinícola deste arquipélago. Verificou A. Tavares que na Ilha da Madeira se observavam práticas meteorológicas idênticas às descritas por Docentio Alarto, na Itália em 1733, sendo crença dum e outro povo que todas as plantas são sublunares.
Em operações de poda vitícola, escreveu Docentio, procede-se assim: «Nas vinhas fracas e em terras altas de pouca sustância não convém fazer-se a poda no último quarto da lua e entrada da lua nova. Nas outras vinhas, postas em outras terras, geralmente pode-se fazer nos outros quartos da lua, assim dicente (descente) como crescente; da lua cheia até o quarto minguante não convém, como do quarto crescente até a lua cheia».
A lua, apesar de pequena, aparentemente, e distante do globo terrestre, exerce sua influência sobre o mar, pois que o magnetiza para os fluxos e refluxos das marés, para as calmarias e tempestades oceânicas; faz as marés mortas ou normais e as vivas, que se afastam extraordinariamente da orla marítima na baixa-mar e sobem investindo pela terra dentro na maré-cheia, em Agosto e, esporadicamente, noutras estações, dispondo assim o mar com a terra em boas ou más relações. Excita a força ciclópica das ondas e dos tufões contra as forças normais da natureza física e humana. Mas além dos fenómenos naturais do Universo, muitos mais exerce o mar por efeito da lua sobre a terra e as populações. Nas levadias junto do litoral e nas tempestades de mar-alto, excessivas pressões atmosféricas comandam lutas meteorológicas que modificam os Continentes, afligem a humanidade ou implicam com actos pessoais e domésticos. Não escapam, porém, estas influências lunares ou marítimas à intuição, experiência e tradição popular. A electricidade atmosférica acende Santelmos na mastreação de navios, em tempo de tempestade, fosforecências que são tomadas por prognósticos de bonança; a preia-mar enrijece os pêlos da barba, embotando as lâminas ou navalhas no seu corte; o tempo ao mar, entre as quadras de su-sueste e sudoeste da Rosa dos Ventos, impede a aderência de polimento à madeira e de vernizes a metais; humedece, alisa e desfaz os cabelos penteados das mulheres; a maré-cheia prejudica o cozimento de moluscos como caramujos ou burriês, dificultando a sua extracção.
No Porto Santo prevê-se a aproximação de mau estado do mar com levadia nas costas do Sul e do Norte da ilha, se o bufador natural do Ilhéu de Cima ou do Farol esguichar jactos de água salgada, em tempo de calmaria marina.
Oferece, portanto, a meteorologia popular inúmeros factores de sua correlação com a vida dos reinos da natureza e a própria vida humana, constituindo um rico, curioso e extraordinário filão de folclore, património das Ilhas Infantinas.
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In Ilhas de Zargo

Bom tempo
(Foto do Autor)




Bibliografia:

GOMES, Celso de Sousa Figueiredo e SILVA, João Baptista Pereira (1997). Pedra Natural do Arquipélago da Madeira, Importância Social, Cultural e Económica. Madeira Rochas - Divulgações Científicas e Culturais. Câmara de Lobos.
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PEREIRA, Eduardo C. N. (1989). Ilhas de Zargo. 4.ª Edição. Câmara Municipal do Funchal. Funchal.
SILVA, Padre Fernando Augusto da e MENESES, Carlos Azevedo de, (1984). Elucidário Madeirense. Fac-símile da edição de 1946. Secretaria Regional de Turismo e Cultura - Direcção Regional dos Assuntos Culturais. Funchal.
QUINTAL, Raimundo (1994). Veredas e Levadas da Madeira. Secretaria Regional e Cultura. Funchal.
QUINTAL, Raimundo (2003). Madeira, a Descoberta da Ilha de Carro e a Pé. 1.ª Edição. Associação dos Amigos do Parque Ecológico do Funchal. Funchal.
QUINTAL, Raimundo (2004). Levadas e Veredas da Madeira. 4.ª Edição. Francisco Ribeiro e Filhos Lda. Funchal.
SECRETARIA Regional do Ambiente e dos Recursos Naturais. Plano Regional da Água da RAM. Funchal.
Link: Instituto de Meteorologia. Glossário Climatológico - Meteorológico.

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