29/08/2007

Desastres Naturais no Arquipélago da Madeira - Resenha Histórica


Introdução e Generalidades

Pico do Cavalo, Passo de Ares e Pico do Serradinho
(A 1240 m de altitude - Curral das Freiras - Foto do autor)

Idem - foto anterior
(Foto do autor)

(Um movimento de vertente, entre o Pico do Cavalo, Passo de Ares e o Pico do Serradinho, sobranceiro ao Curral das Freiras, aliado à elevada precipitação, transformou-se num fluxo aquoso detrítico que soterrou e arrasou várias habitações no Sítio das Balseiras, situadas entre os 380 m e os 400 m de altitude, onde ficaram desalojadas cerca de 50 pessoas, a 06 de Março de 2001 - foto do autor)


(Foi neste vale que a enxurrada abriu caminho até ao no Sítio das Balseiras, Curral das Freiras - foto do autor)

A actividade vulcânica submarina que formou as ilhas do Arquipélago da Madeira, actualmente adormecida, criou-lhes um relevo único e peculiar. Em milhões de anos, estas ilhas do Atlântico Norte contaram com agentes da natureza que as modificaram até à actualidade. De entre esses agentes, a acção da água das chuvas e do mar, foram preponderantes no moldar o relevo das ilhas, que quimicamente e mecanicamente desgastaram as diferentes rochas vulcânicas.
As rochas desgastadas e decompostas desequilibraram-se, penderam e desabaram, com a ajuda da gravidade, transformando-se em sucessivos depósitos de detritos, em função do peso e da velocidade das correntes provocadas pelas chuvas torrenciais. Estas, que acompanharam sempre os diferentes períodos da formação vulcânica das ilhas, moldaram picos e planaltos, construíram fajãs, transformaram os filões de basalto em diques, escavaram vales profundos e originaram a erosão progressiva com um mutável grau de energia.

Sítio das Balseiras - Curral das Freiras
(A 400 m de altitude - foto do autor)

As águas apertadas entre tornos e arribas, ressaíram-se do nível dos leitos, tombaram em quedas e escavaram caldeirões profundos envoltos em lendas. No seu percurso, conforme os tributos de confluência das correntes, foram removendo e depondo cargas de sedimentos, que ao serem barradas, por obstáculos naturais ou não, formaram terras chãs, assorearam as praias de calhaus ou de areia e pintaram o azul do Atlântico muitas vezes de cor amarela ou castanha.
O Atlântico, possuidor de correntes, geradoras de movimentos marinhos, por desconformes factores meteorológicos, criaram e criam, vários estados de mar, alguns dos quais bastante prejudiciais à navegação, à pesca e às zonas costeiras: «o mar de marulho é cheio de vaga forte por efeito de ventos predominantes; o de cachão ou picado, o que encrespa o dorso em pequenas e leves vagas espumantes pela acção de ventos próximos que lhe varrem a superfície; mar da brisa, o que ondula e se remexe por força do vento de nordeste e dá às pequenas embarcações o balanço de parafuso, redemoinhando a cabeça e estômago dos navegantes sem poderem resistir ao sofrimento do enjoo; mar de águas tesas, o que corre com velocidade impeditiva de pesca; mar grosso, o de onda brava e alterosa, mar das tempestades dos quadrantes de sul e sudoeste, flagelo de embarcações e de vidas em terra e no mar». Ondas gigantes no Outono e no Inverno acompanham os temporais, saltam para as praias, galgam molhes, levantam a alturas consideráveis e abalroam ilhéus e ilhas.

Costa do Porto Santo
(Foto do autor)

A acção do mar, conhecida por abrasão marinha, com o auxílio das levadias cíclicas, reduziu consideravelmente o litoral das ilhas e fez variar a linha de costa das mesmas. O mar talhou, em muitos pontos, pináculos que se transformaram em promontórios quase a prumo, (Cabo Girão, com 580 metros de altura sobre o mar, o segundo mais elevado do Mundo), e abriu enseadas, abras e calhetas, arquitectando também filões de basalto em ilhéus solitários. Assim, a costa a norte das ilhas expostas às fortes correntes marítimas de superfície, influenciadas pelos ventos predominantes do quadrante norte, foi visivelmente corroída e a costa sul sensivelmente “aumentada”, com a acumulação de sedimentos, designadamente na Madeira e no Porto Santo. Como exemplos, poderemos apontar a praia de Porto Santo e as praias do Funchal e de Machico, da Madalena do Mar e da Ribeira Brava.

Doca - Deserta Grande
(Uma derrocada ou quebrada formou esta fajã em 1894 - foto do autor)

Este cenário natural não foi igual em todas as ilhas que constituem o arquipélago da Madeira. Cada ilha teve, e tem, as suas especificidades próprias. Isto é, não só por terem idades geológicas diferentes, mas também por serem morfologicamente dissemelhantes, o que define a existência de riscos naturais, também diferentes, tanto de origem geológica como de origem hidrometeorológica. Estes riscos naturais, com a presença humana, agravados ou originados por factores também humanos, provocam o desequilíbrio dos sistemas naturais, que são muitas vezes causa de desastres no arquipélago.
A existência na ilha da Madeira de núcleos urbanos junto às bacias hidrográficas e abaixo do nível do mar, com um elevado grau de exposição a este tipo de riscos, designadamente a vila da Ribeira Brava, a cidade de Machico e do Funchal, são exemplos disso. Por outro lado, a natureza dos desastres naturais nas ilhas do Porto Santo e Selvagens, arrasadas pelos agentes erosivos, onde a maior parte dos seus edifícios vulcânicos foram desmantelados, são diferentes dos da Madeira e das Desertas.

Selvagen Pequena
(Foto do autor)

As Selvagens tiveram o mar como principal agente erosivo, que contribuiu para a existência de muitos baixios, que são autênticas armadilhas à navegação marítima.
O Porto Santo, por ter o seu relevo pouco acentuado e fraca pluviosidade, só quando é atingido por tempestades torrenciais, acompanhadas de levadias (marés-vivas), sofre grandes inundações ou cheias, nas cotas mais baixas. Estas inundações ou cheias, em alguns casos e em zonas com algum declive, podem-se caracterizar em enxurradas ou aluviões. As enxurradas nesta ilha, são pouco frequentes.
As Desertas, com o seu relevo acentuado e paralelo às correntes predominantes de superfície, e face à influência da abrasão marinha, as suas falésias por vezes cedem e provocam tsunamis, que atingem a costa da Madeira.
Contudo, é na Madeira que os desastres naturais têm a sua maior expressão e para os minimizar foram efectuadas obras, que se iniciaram em 1804 (?), após a aluvião de 09 de Outubro de 1803, com as “canalizações” das ribeiras nas cidades do Funchal e de Machico, e culminaram até os dias de hoje, com a construção de túneis rodoviários, paredões, enrocamentos marítimos, limpeza e estabilização de taludes, para protecção das populações.

Fajã dos Padres
(Foto do autor)

Na ilha da Madeira, as primeiras chuvas fortes, em consequência de tempestades tropicais que se formam no Atlântico Norte, escoltadas por nuvens do género cúmulo-nimbo e outros fenómenos atmosféricos, aparecem geralmente em Outubro, com uma intensidade variável, por vezes copiosas e violentas com uma duração de alguns dias. Estas chuvas torrenciais trazidas com frequência por ventos de sul e sudoeste, e excepcionalmente, pelos de oeste e noroeste, podem ainda ocorrer por vezes nos meses de Novembro, Dezembro, Janeiro, Fevereiro e Março (?). E, é nestes meses que as narrativas históricas referem os maiores desastres naturais na ilha, que face às anunciadas alterações climáticas actuais, esta regra cronológica, pode mudar a qualquer momento ou num futuro próximo.
Os desastres naturais que tradicionalmente acontecem na Madeira, e numa hipotética escala de percentagem pelo número de vítimas que têm causado até a actualidade, deparamo-nos logo de início com as enxurradas (aluviões), de seguida as derrocadas, depois os “tsunamis”, e por fim os sismos.

Estabilização de um "movimento de vertente"
(Talude sobranceiro no Sítio do Massapez-Calheta, conhecido na Comunicação Social Regional, como "Fenda do Massapez" - foto CENOR)

As enxurradas, (torrentes de água formada pelas chuvas torrenciais), quando acompanhadas de derrocadas (escorregamentos de vertente, avalanches rochosas, desabamento ou queda de rochas), ao fazerem barragem às anteriores nos cursos de água (ribeiros e ribeiras), determinam a subida do nível freático, que ao entrarem em rotura ou em colapso, transformam-se num fluxo aquoso detrítico em movimento de dimensões consideráveis. Este fluxo, aliado ao declive acentuado da orografia da Ilha da Madeira (declives entre 30 a 40%, a montante, e 04 a 10%, a jusante), atinge velocidade e energia tal que transborda dos leitos, inunda e deposita nas cotas mais baixas o material detrítico transportado, caracterizando-se numa aluvião. As aluviões são pouco frequentes, mas são, os desastres naturais que mais tem feito vítimas humanas e danos materiais na Madeira, no seu curto período histórico de 500 anos.



Praça da Autonomia - Funchal - Aluvião de 1993
(Foto do autor)

O dia 09 de Outubro de 1803, «foi neste dia tristemente memorável que uma grande inundação assolou os campos da Madeira e destruiu uma parte considerável da cidade, causando não somente enormes prejuízos materiais mas também a perda da vida de algumas centenas de pessoas. Pode sem duvida considerar-se a maior calamidade que tem ferido esta ilha no largo período de cinco séculos. Longe iríamos se quiséssemos fazer uma descrição pormenorizada desta tremenda catástrofe e por isso nos limitamos a traçar umas breves notas, rapidamente colhidas nas crónicas do tempo». Refere o Elucidário Madeirense. Prossegue o mesmo que, «tinham caído algumas chuvas, com várias intermitências, nos dez ou doze dias que precederam o 9 de Outubro de 1803. Neste dia, pelas 8 horas da manhã, começou a cair no Funchal uma chuva não muito copiosa, que se manteve inalteravelmente até às 8 horas da noite, mas nada fazia recear que estivesse iminente uma tão terrível inundação. Principiou então a ouvir-se o ribombar do trovão e a chuva, acompanhada de algum vento, caia já em verdadeiras catadupas. Ás 8 horas e meia as águas das ribeiras galgavam as suas margens e espalhavam-se com grande ruído pelas ruas laterais, começando a sua obra de destruição e de morte. Estava-se em pleno dilúvio. É indescritível o pavor que se apossou dos habitantes, que maior se tornou ainda pelo inopinado do acontecimento, que a um grande número apanhou de surpresa e sem possibilidade de pôr-se ao abrigo do perigo que a todos ameaçava. A morte surpreendeu a muitos na fuga, arrastados pela violência das correntes ou atingidos pelas derrocadas das casas e paredes que se desmoronavam.»

Agitação marítima no Funchal
(Foto do autor)

(…) «Fora do Funchal, as povoações que mais sofreram com a horrível inundação foram Machico, Santa Cruz, Campanário, Ribeira Brava e Calheta, tendo sido relativamente pequenos os prejuízos causados nas freguesias do norte da ilha. São bastantes discordes as informações contemporâneas dos acontecimentos, com relação ao número de pessoas que sucumbiram, vítimas daquelas inundações, chegando uma narrativa do terrível caso a computar em cerca de mil os indivíduos mortos e desaparecidos. Parece não estar muito distanciado da verdade quem fixar em seiscentos o número aproximado dos que morreram, sendo a maior parte no concelho do Funchal.»
(…) «A principal causa dos males produzidos pela aluvião foi a falta do encanamento das ribeiras. Embora tardiamente, resolveu o governo da metrópole realizar esse tão desejado melhoramento, enviando á Madeira o brigadeiro Reinaldo Oudinot encarregado de dirigir os respectivos trabalhos e que aqui chegou a 19 de Fevereiro de 1804. Revelou a maior competência no desempenho do cargo em que fora investido e nele desenvolveu uma pasmosa actividade, conseguindo num período relativamente curto de tempo fazer o encanamento das três ribeiras que atravessam o Funchal. Em Dezembro de 1806, comunicava ele ao governo central que, a pesar dos grandes temporais e fortes invernias que pouco antes houvera, as muralhas tinham resistido ao embate violento das águas e oferecido uma prova evidente da solidez da sua construção.»
E, foi este o relato do fatídico dia 09 de Outubro de 1803. Mas outros, talvez com menos vítimas, antes e depois desta data, também deixaram as suas marcas históricas no arquipélago da Madeira. As aluviões mais recentes e que ainda estão presentes na memória foram as de 29 de Outubro de 1993, 05 de Março de 2001 e 20 de Fevereiro de 2010.

Marina do Funchal - Aluvião de 1993
(Foto do autor)

As derrocadas, conhecidas localmente por quebradas, são os fenómenos geológicos mais habituais na Madeira. Para exemplificar esta frequência, costumamos dizer que “as derrocadas estão para a Madeira como os sismos estão para os Açores”. Não nos podemos esquecer que dois terços da ilha da Madeira têm declives superiores a vinte e cinco por cento (25%), para não relembrar a abrasão marinha no litoral. Assim, as derrocadas por vezes, podem ser simples avalanches rochosas em queda das encostas, como deslizamentos de grandes dimensões em movimentos de vertente, tanto rotacionais como translacionais, conforme a superfície de deslizamento. De uma forma geral, as derrocadas são consequência de escorregamentos superficiais ou por erosão hídrica de materiais, constituídas por fluxos de detritos de origem piroclástica, lávica ou florestal, que podem formar grandes depósitos de materiais, (coluvio-aluvionares). A concentração destes depósitos de materiais deu origem às “famosas” fajãs no interior e no litoral da Madeira. São alguns exemplos, as Fajãs do Cabo Girão (Câmara de Lobos), Fajã dos Padres (Campanário), Fajã Escura e Fajã dos Cardos (Curral das Freiras), Fajã das Galinhas (Estreito de Câmara de Lobos), Fajã do Mar (Faial), Fajã do Cedro Gordo (S. Roque do Faial), Fajã da Areia (S. Vicente), Fajã do Penedo (Boaventura), Fajã da Ovelha, Jardim do Mar, e Paul do Mar (Calheta), Quebrada Nova (Achadas da Cruz), e o Lugar de Baixo (Ponta do Sol), etc. O Lugar de Baixo, é uma fajã progressiva, de formação mais recente e muito aumentada pela aluvião de 1803, segundo o Elucidário Madeirense.

Cabo Girão - Câmara de Lobos
(Foto do autor)

As derrocadas na orla marítima ou junto ao mar dão origem a “tsunamis”, como já foi dito anteriormente. Em 1894 deu-se uma grande derrocada na Deserta Grande, de que resultou o mar avançar e recuar sensivelmente nalguns pontos da costa sul da Madeira, «semelhantemente ao que sucedera por ocasião do terramoto de 1755», tendo «o mar subido no Funchal, 5 metros acima da maré cheia, e no norte da ilha, recuado cerca de 100 metros, deixando em seco grande quantidade de peixe», lê-se no Elucidário Madeirense. Também em 1930, o mar invadiu a Ribeira do Vigário, em Câmara de Lobos, «onde surpreendeu 24 pessoas, homens, mulheres e crianças, das quais morreram 16, ficaram cinco feridas e desapareceram 3», em consequência de uma derrocada de grandes dimensões no Cabo Girão, no sítio do Rancho, que «arrastou terrenos da altura de 400 m para o Mar, formando uma ponta de cerca de 300 m», como narra o Elucidário. Recentemente, entre 01 e 02 de Fevereiro de 1992, junto à Penha d’ Águia no Porto da Cruz, uma grande derrocada formou a mais jovem fajã da Madeira.

Junto à Penha d' Águia - Faial - Porto da Cruz
(A mais jovem fajã da Madeira - foto do autor)

O arquipélago da Madeira regista uma baixa sismicidade. Está situado numa região considerada de estável, onde os sismos são de baixa intensidade. Estes podem ser resultantes de falhas transformantes associadas ao "Rift do Atlântico", à actividade vulcânica submarina, a falhas activas intraplacas, ou a escorregamentos submarinos de grandes dimensões. Em 500 anos, de muitos sismos sentidos na Madeira, apenas há registo de um forte abalo em 31 de Março de 1748, que provocou vítimas e danos materiais. O Elucidário Madeirense assim o refere. Segundo este, «uma noticia escrita por essa época acerca do acontecimento e que foi reproduzida a página 697 das Saudades da Terra, em que algumas pessoas dignas de crédito afirmaram terem visto ‘para a parte de leste da mesma ilha sahir para o ar huma grande facha de fogo, e que pouco depois observarão, que se conservou por espaço de hum quarto de hora, hum grande clarão da cor do mesmo fogo, e se sentio que o ar estava com quentura desusada’. Apesar da violência dos abalos de terra de 31 de Março de 1748, houve apenas quatro vítimas: um homem velho, pai do vigário de Santo António, uma criança e duas mulheres. Os prejuízos materiais foram, porém, consideráveis, não havendo edifício, diz a notícia a que atrás nos referimos, que não ficasse ofendido, por mais fortes que fossem as suas paredes. De 1 de Abril até 26 de Maio, sentiram-se na Madeira, em diversos dias, novos tremores de terra, mas nenhum deles atingiu a violência do de 31 de Março, que causou bastantes estragos em muitos pontos da ilha. A Sé Catedral ficou com várias fendas e com o frontispício inclinado para fora, sofrendo também bastante a torre da igreja; e nos templos de Santa Maria Maior do Calhau, Santo António, S. Gonçalo, Camacha, Machico, Caniçal, Porto do Moniz, Prazeres, Paul, Arco da Calheta, Canhas, Serra de Água, Câmara de Lobos e Estreito de Nossa Senhora da Graça houve também bastantes prejuízos, causados pelo mesmo abalo de terra. A casa em que residia o bispo ficou em estado de não poder ser habitada, e as casas da Alfândega e Contos, apesar das suas paredes fortíssimas, ficaram com trinta e duas fendas, além doutros estragos mais ou menos notáveis.»

Queda de rochas na marginal da Calheta
(Foto de autor desconhecido)

Nos supracitados parágrafos, e com a finalidade de exemplificar determinados fenómenos naturais de origem meteorológica, hidrometeorológica e geológica, que ocorreram e ocorrem no Arquipélago da Madeira, descrevemos alguns exemplos de acontecimentos históricos que deram origem a desastres naturais, principalmente na Ilha da Madeira. E para tal, enunciamos factos descritos no Elucidário Madeirense.
No referido Elucidário, e no artigo relativo às aluviões, «que tem havido na Madeira e sobre as quais» conseguiram «obter alguns esclarecimentos», os seus autores referem que: «É de advertir, porém, que a aluvião de 1724 não foi a primeira que causou prejuízos, pois que Mouquet que esteve aqui» (na Madeira) em 1601, diz, embora não precise datas, «que as águas que descem das montanhas algumas vezes destroem pontes e casas em toda a ilha».
Na verdade, e pelo “Recenseamento da Ilha da Madeira de 1598”, publicado na revista do Arquivo Histórico da Madeira (1932, vol. II págs. 28 a 30), citado por Rui Carita (1991, História da Madeira, 2.º vol., pág. 458), podemos ler o seguinte: «O Lugar da Ribeira Brava tem a igreja principal de São Bento e tem duas ermidas: Bom Jesus, no lugar deste nome e pela ribeira acima, Nossa Senhora da Serra da Água. Tinha antes que a ribeira levasse parte do lugar, 281 fogos, agora tem 208 e 735 almas de sacramento

Vale da Serra de Água
(Foto do autor)

E, ainda sobre o Lugar da Ribeira Brava, acrescenta-nos Alberto A. Sarmento (1953, Freguesias da Madeira, pág. 163) que: «Divide a caudalosa ribeira a povoação em dois bairros, mais adensado o de leste, sendo junto às margens incerta a fazenda, que por vezes a aluvião levava de oferta ao mar. Em 1502, um anteparo foi levantado em reforço dum cotovelo para proteger o lugar, mas riu-se o inverno da previdência e um braço da ribeira castigou impiedosamente vários casais.
Em 1565, quinhentos cruzados tiveram destino a obras de muralhas na Ribeira Brava, e um alvará de 4 de Janeiro de 1661 diz que do tributo do vinho pago pelo lugar se tire o necessário para os consertos e corregimento das águas. Houve um projecto de desviar o leito: encostar-lhe a margem esquerda ao sopé da rocha dum elevado contraforte, que obrigaria a ribeira a ladear, enxugando o antigo curso.
Sobre as enchentes, uma nota interessante foi lançada no arquivo paroquial em louvor do patriarca São Bento, em 1735, assim concebida: - por tradição se conta que foi visto o santo, por um vigario virtuoso, rebater a corrente da ribeira que ameaçava ruina a este Lugar e só por milagre do santo se conserva.»

Foz da Ribeira Brava
(Depois da aluvião de 20 de Fevereiro de 2010 - foto do autor)

Assim entendemos, salvo melhor opinião, que os citados fenómenos naturais que deram origem a desastres nas ilhas da Madeira e do Porto Santo, sempre fizeram parte da vivência dos madeirenses e porto-santenses.
Acresce que, o tempo e a pouca frequência dos acontecimentos relatados na recente história do arquipélago madeirense, felizmente "apaga-se" na memória colectiva, a ocorrência de fenómenos naturais que no passado provocaram vítimas humanas. Estes mesmos acontecimentos, são iguais em todas as ilhas do Mundo com as mesmas características geomorfológicas que as ilhas da Madeira e do Porto Santo, como por exemplo, as vizinhas ilhas das Canárias e dos Açores.
A ilhas do Arquipélago da Madeira, são o que são, na sua Natureza, moldadas à custa destes fenómenos naturais desde que emergiram do mar, há milhões de anos. Se assim não fossem, não seriam as ilhas que nós conhecemos!

Fajã da Quebrada Nova - Achadas da Cruz - Porto do Moniz
(Foto do autor)


Cronologia dos Desastres Naturais no Arquipélago da Madeira


A cronologia abaixo publicada, relaciona os desastres e outros fenómenos naturais que ocorreram no Arquipélago da Madeira de origem meteorológica, hidrometeorológica e geológica, designadamente, as enxurradas ou aluviões, derrocadas ou quebradas, “tsunamis” e sismos (abalos ou tremores de terra). Relativamente aos sismos, só um de que há notícia (em 31 de Março de 1748), causou estragos materiais e perda de vidas humanas até a actualidade. Por se achar pertinente, se relacionou todas descrições da actividade sísmica para interesse estatístico e outros fenómenos geológicos e meteorológicos.
Igualmente, e na sequência dos grandes temporais que sempre assolaram o arquipélago e o mar que o circunda, causaram naufrágios de navios e embarcações, enunciando-se alguns deles, em complemento à informação disponível.
Assim, julgamos oportuno ter presente, a definição de desastre, que é a seguinte: «grave perturbação do funcionamento de uma sociedade, que provoca prejuízos humanos, materiais ou ambientais em grau tão elevado que a sociedade afectada fica incapacitada de lhe dar resposta por meios próprios» (1).
Esta relação, é o resultado da consulta ao Elucidário Madeirense, (Padre Fernando Augusto da Silva e Carlos Azevedo de Meneses), às Ilhas de Zargo (Eduardo C. N. Pereira), Adenda às Ilhas de Zargo (Ângela Borges Gonçalves e Rui Sotero Nunes), Paulo Dias de Almeida e a Descrição da Ilha da Madeira da Madeira de 1817/1827 (Rui Carita) e aos jornais regionais (Jornal e Diário de Notícias da Madeira), complementada pelo autor, relativamente aos acontecimentos recentes. Poderá haver omissão de outras ocorrências por falta de fundamentação documental.

1593 - 26 de Julho. «Deu-se nesta ilha um fenómeno de incandescência atmosférica, que nas cronicas madeirenses ficou conhecido pelo nome de Fogo do Céu. Nos dias 24 e 25 do mês e ano referidos soprara violentamente o conhecido ‘vento leste’ acompanhado de tão intenso calor, que, no dizer duma testemunha coeva do acontecimento, ‘não havia pessoa viva que sahisse de casa nem abrisse janela, nem se podia sofrer dentro das casas, nem se podia nestas estar por ser o ar tão quente que tudo era cuidarem que pereciam e o vento era tal que parecia queimava os ossos, cousa que jamais os homens viram nestas partes’.Tornou-se cada vez mais intenso o calor e pelo começo da noite no dia 26 era já bem visível o raro mas conhecido fenómeno de incandescência atmosférica, que pelas 11 horas se transformou num pavoroso incêndio, queimando toda a vegetação e reduzindo a um enorme braseiro um numero considerável de habitações». (Elucidário Madeirense).

1611 - Os autores do Elucidário Madeirense sem precisar dia e mês, referem que, «colhemos notícia, num antigo manuscrito, que no ano de 1611 houve uma grande enchente no Funchal, que, entre os notáveis estragos que causou, se conta o de ter destruída em grande parte a igreja paroquial da freguesia de Santa Maria Maior que então ficava na rua que hoje tem o nome de Hospital Velho. Procedeu-se depois á construção duma nova igreja nas imediações do actual fontanário chamado do Calhau, e que foi arrastada para o mar pela aluvião de 1803.»

1689 - Idem. No Arco de São Jorge, deu-se uma «grande quebrada que ha mais de dois séculos ali caiu, desagregando-se muitos terrenos, principalmente do Arco Pequeno, que deram lugar á formação daquele sítio», e nome ao lugar, sítio da Quebrada. O «caso é vulgar na Madeira, e a freguesia do Jardim do Mar, uma parte da do Paul e o sítio do Lugar de Baixo e ainda outros, formaram-se de maneira idêntica a esta», segundo os autores do Elucidário. Na Quebrada do Arco de S. Jorge «deu-se, porém, uma circunstancia muito singular, que merece menção especial e á qual temos encontrado várias referências», onde «várias casas de habitação serem arrastadas a distâncias relativamente grandes sem ficarem arruinadas.»

1707 - Idem. «Também existe notícia doutra aluvião que se deu no ano de 1707 e que causou consideráveis prejuízos em toda a ilha.»

1724 - 18 de Novembro. «Os estragos desta aluvião fizeram-se principalmente sentir na freguesia de Machico, morrendo ali 26 pessoas e abatendo-se mais de 80 habitações. No ‘Anno Histórico’, referindo-se o Padre Francisco de Santa Maria á aluvião de 1724, diz que ‘padeceu a ilha da Madeira uma tormenta e dilúvio tão grande, que destruiu a vila de Machico, parte da de Santa Cruz e muitos outros logares e sítios da mesma ilha, e também a cidade do Funchal experimentou grande dano e muitas ruínas, assim nas suas muralhas como na povoação, com a enchente da Ribeira do Pinheiro (Santa Luzia)’ que a divide». (Elucidário Madeirense).

1748 - 31 de Março. «Da uma para as duas horas da manhã, sentiu-se na Madeira um forte abalo de terra, que foi seguido de outros dois, lendo-se, numa noticia escrita por essa época acerca do acontecimento e que foi reproduzida a página 697 das Saudades da Terra, (…). No dia 1 de Abril, houve, por ordem do Prelado, preces solenes na Sé Catedral, ás quais assistiram o cabido, o senado, os ministros, a nobreza e o povo, sendo depois trasladada processionalmente para o altar do Santíssimo Sacramento da mesma Sé, a imagem de S. Tiago, padroeiro da cidade. As preces continuaram, com o Senhor exposto, até 9 de Abril, e estas rogativas, diz a mesma noticia, ‘também fizeram todas as mais Comunidades Religiosas, e todas as Collegiadas da Cidade; mas os moradores das villas, lugares e campos usaram, além destes, outros exercícios, tão catholicos, como espirituais’. (…) De 1 de Abril até 26 de Maio, «sentiram-se na Madeira, em diversos dias, novos tremores de terra, mas sem nenhum deles atingir a violência do de 31 de Março, que causou bastantes estragos em muitos pontos da ilha. A Sé Catedral ficou com várias fendas e com o frontispício inclinado para fora, sofrendo também bastante a torre da igreja, e nos templos de Santa Maria Maior do Calhau, Santo António, S. Gonçalo, Camacha, Machico, Caniçal, Porto do Moniz, Prazeres, Paul, Arco da Calheta, Canhas, Serra de Água, Câmara de Lobos e Estreito de Nossa Senhora da Graça houve também bastantes prejuízos, causados pelo mesmo abalo de terra. A casa em que residia o bispo ficou em estado de não poder ser habitada e as casas da Alfândega e Contos, apesar das suas paredes fortíssimas, ficaram com trinta e duas fendas, além doutros estragos mais ou menos notáveis. Apesar da violência dos abalos de terra de 31 de Março de 1748, houve apenas quatro vitimas: um homem velho, pai do vigário de Santo António, uma criança e duas mulheres. (…)». (Elucidário Madeirense).

1755 - 01 de Novembro. «Houve um abalo de terra na Madeira, tendo o mar subido no Funchal, 5 metros acima da maré cheia, e no norte da ilha, recuado cerca de 100 metros, deixando em seco grande quantidade de peixe. No Porto Santo, entrou o mar pelo leito da ribeira da vila, ‘cerca de um quarto de milha, e no escoamento da água ficou quasi em seco o boqueirão do Ilhéu de Cima’ (...)». (Elucidário Madeirense).

1762 - 26 de Junho. «Houve um abalo de terra no Funchal, que não produziu estragos». (Elucidário Madeirense).

1765 - 18 de Novembro. «Em virtude das grandes chuvas, cresceram muito neste dia as ribeiras que atravessam o Funchal, sendo destruída a Ponte da Praça e sofrendo bastante outras pontes da cidade. As águas da Ribeira da Praça ou de João Gomes arrastaram para o mar o inglês Moita (?), o qual nunca mais apareceu». (Elucidário Madeirense).

1768 - 05 de Novembro. «Experimentou a ilha da Madeira um violento terramoto, mas não dizem os documentos da época se produziu estragos». (Elucidário Madeirense).

1772 - Paulo Dias de Almeida, na sua "Descrição da Ilha da Madeira da Madeira de 1817/1827", refere neste ano, sem precisar o dia e o mês, que na «Povoação e vila de Santa Cruz» (...), «tinha havido outra cheia que levou a Igreja de São Pedro e arruinou muitas casas.»

1786 - Os autores do Elucidário Madeirense sem precisar dia e mês, referem que, «grandes chuvas e um violento vendaval, que causou muitos prejuízos.»

1803 - 09 de Outubro. «(…) A morte surpreendeu a muitos na fuga, arrastados pela violência das correntes ou atingidos pelas derrocadas das casas e paredes que se desmoronavam. Foi o bairro de Santa Maria Maior o mais sacrificado pela tempestade. A ribeira de João Gomes, com a abundância e violência das águas, rebentou em três diversos pontos, formando outras tantas impetuosas correntes que causaram os maiores estragos e vitimaram algumas dezenas de pessoas. Ruas inteiras e inúmeras casas de habitação e outros prédios foram arrastados para o mar, incluindo a igreja paroquial, conhecida pelo nome de Nossa Senhora do Calhau e que ficava na margem esquerda da ribeira, entre as actuais rua de Santa Maria e rua Nova de Santa Maria. Numa casa desta rua ficaram soterrados 21 indivíduos e num prédio do Pelourinho morreram um súbdito inglês e 15 pessoas de família. Calcula-se que só no bairro de Santa Maria Maior tivessem perecido cerca de 200 pessoas por ocasião da aluvião. Os prédios marginais da ribeira de Santa Luzia também sofreram bastante. Acima da ponte do Bom Jesus as águas tomaram novo curso por uma e outra margem daquela corrente e, sobretudo na rua dos Ferreiros, causaram estragos consideráveis, tendo-se abatido diversas casas de habitação e lojas de comércio. O mesmo aconteceu na rua dos Tanoeiros e a vários prédios que ficavam na margem esquerda daquela ribeira e que formavam a rua Direita, prédios que foram arrastados pela violência da corrente. (…) Ruas inteiras desapareceram com seus habitantes e outras inundadas de água e lama deixaram os proprietários e inquilinos reduzidos á extrema indigência. Uma grande parte da freguesia de Santa Maria Maior, assim como a sua igreja, a mais antiga da cidade, não existem com uma boa porção dos seus infelizes moradores: o resto disperso cá e lá, inundado e abandonado, oferece aos olhos do homem sensível um objecto de dor, de ruína e consternação. As ruas chamadas Direita, Tanoeiros, Valverde, Santa Maria, Hospital Velho e outras foram ao mar com uma incrível multidão de habitantes. (…) Também demoliu a antiga e histórica capela do Senhor dos Milagres, tendo a respectiva imagem sido encontrada dias depois, no alto mar, por uma galera americana, que a fez depositar na Sé do Funchal. (…) São bastantes discordes as informações contemporâneas dos acontecimentos, com relação ao número de pessoas que sucumbiram, vítimas daquelas inundações, chegando uma narrativa do terrível caso a computar em cerca de mil os indivíduos mortos e desaparecidos. Parece não estar muito distanciado da verdade quem fixar em seiscentos o número aproximado dos que morreram, sendo a maior parte no concelho do Funchal. (…)». (Elucidário Madeirense).

Estragos provocados pela aluvião de 09Out1803 - Pelourinho - Funchal
(Planta de 1804 do Brig. Reinaldo Oudinot - Instituto Geográfico Português - Arquipélagos)

1804: - 08 e 11 de Janeiro. Na baía do Funchal, «houve fortes temporais, naufragando duas galeras inglesas». (Elucidário Madeirense);
- 24 de Abril. «Houve três abalos á noite, com intervalos de 8 a 10 minutos, todos eles violentos». (Elucidário Madeirense).

1813 e 1814 - «Existe referências a abalos de terra que se sentiram na Madeira, mas sem indicar as datas dos mesmos em que se deram». (Elucidário Madeirense).

1815 - 26 de Outubro. «Depois da grande aluvião de 9 de Outubro de 1803 foi talvez a maior que tem assolado esta ilha. Numa representação que, sobre os estragos causados por esta inundação de 26 de Outubro de 1815, dirigiu a Câmara Municipal do Funchal ao Príncipe Regente D. João, se afirma que esta foi incomparavelmente maior do que a aluvião de 1803, mas, nem pelo numero de vitimas nem pelos prejuízos que causou, atingiu as proporções da outra, a pesar das enormes perdas que acarretou aos habitantes do Funchal. Como em outras ocasiões aconteceu, foram as correntes impetuosas das ribeiras que ocasionaram os maiores prejuízos. Especialmente nalguns pontos das margens das ribeiras que não tinham muralhas a ampararem e a dirigirem o curso das águas, saíram estas fora do seu leito, galgaram os terrenos marginais e abriram novo caminho, através das ruas e casas, causando não só incalculáveis estragos, como produzindo o maior pânico entre os habitantes, alguns dos quais foram vitimas do ímpeto indomável da corrente. Foi o que aconteceu com as águas da ribeira de S. João que, procurando novo percurso, arrastaram na sua violência cerca de vinte casas desde a ponte de S. Paulo, ao fim da rua da Carreira, até á foz da mesma ribeira. Nas ruas marginais da ribeira de Santa Luzia, também foram grandes os estragos, ficando danificadas algumas casas e em alguns pontos as muralhas da mesma ribeira. Por toda a ilha houve prejuízos consideráveis e morreram várias pessoas, arrastadas pela violência das correntes. Os horrores da grande aluvião de 1803, ainda bem presentes na memória de todos, fizeram aumentar o pânico nos habitantes, que, na sua grande maioria, julgaram que não havia possibilidade de escapar á morte, que para eles parecia inevitável». (Elucidário Madeirense).
Sobre esta ocorrência, Paulo Dias de Almeida, refere que, «em 30 de Outubro de 1815 pelas 5 horas da tarde, houve uma aluvião que levou quarenta casas e arruinou outras, inundando ruas, e se fosse à noite muita gente morreria afogada. A ribeira de S. Paulo chegou a trazer uma coluna de água e rochedos, que ocuparam a largura de 60 palmos e 30 de alto. Entre as pedras que ficaram no leito da ribeira, junto ao mar, havia uma de 20 palmos quadrados, e de 10 palmos muitas» (um palmo, igual a 22 cm). «Esta enchente durou uma hora». (Paulo Dias de Almeida e a Descrição da Ilha da Madeira da Madeira de 1817/1827).

1816: - 11 de Janeiro. «Deu-se um tremor de terra que se fez sentir, que abriu fendas nalgumas habitações do Funchal. Muitas pessoas que se achavam nas ruas foram de encontro ás paredes ao dar-se o abalo». (Elucidário Madeirense);
- 02 de Fevereiro. «Em Machico, de madrugada, estando o povo ouvindo missa na igreja matriz, sentiu-se um extraordinário abalo de terra, que durou por algum tempo. O povo saiu atropeladamente da igreja, mas não perigou pessoa alguma nem houve estragos importantes. Este abalo também se fez sentir noutras partes da ilha, sendo tão grande o susto, que em várias igrejas se fizeram preces e procissões públicas». (Elucidário Madeirense).

1836 - 18 de Outubro. «Os grandes temporais» (…), «fizeram dar á costa proximo de Santa Catarina, a barca portuguesa Maria Adelaide e o iate Conceição e Almas, morrendo um tripulante dêste ultimo navio. Na mesma ocasião, naufragou também ali um barco carregado de vinho, vindo do norte». (Elucidário Madeirense).

1842: - 24 de Outubro. «Os Anais do Porto Santo referem-se a um ligeiro abalo de terra que se sentiu naquela ilha, no dia 24 de Outubro, mas não encontramos noticia de que esse abalo fosse notado também na Madeira». (Elucidário Madeirense);
- 26 de Outubro. Na baía do Funchal, «o mar arrojou á praia cinco navios, desaparecendo um outro, que não tornou a ser visto». (Elucidário Madeirense);
- 28 de Outubro. «Havia quinze dias que quase ininterruptamente caia pequeno orvalho. As 9 horas da manhã do dia 24 de Outubro as chuvas eram já abundantes, e ás 3 horas da tarde as águas pluviais caíam a torrentes. As águas das ribeiras saíram dos seus leitos e espalharam-se impetuosamente pelos terrenos marginais, causando grandes estragos. Ficaram completamente inundadas as ruas do bairro de Santa Maria Maior, o Pelourinho, a rua dos Medinas e ainda outras, chegando a água a invadir os segundos e terceiros andares das casas. Em muitas ruas da cidade os barcos navegavam para a custo salvarem muitas famílias que imploravam misericórdia dos últimos andares e telhados. Por toda a parte se ouviam gritos de terror. Um dos homens a quem mais se deveu a salvação de muitos infelizes inundados foi o cidadão Joaquim Dias de Almeida, mas houve muitos outros que se distinguiram, como nessa época fizeram menção o Imparcial e o Defensor, jornais do Funchal. As calçadas de Santa Clara, do Pico, Bela Vista e Incarnação foram convertidas em caudalosas ribeiras. O bairro do Cemitério dos Inglêses ficou despovoado, sendo todos os seus moradores acolhidos e agasalhados, com todos os confortos, por uma proprietária abastada, que residia no fim da rua da Bela Vista. Uma grande parte da cidade ficou destruída e as casas arruinadas até aos alicerces. Muitas famílias remediadas ficaram pobres. Foi um prejuízo de centenares de contos de reis. No dia 26 de Outubro o vento de sul fez desencadear no porto do Funchal, uma medonha tempestade. As ondas embravecidas saltavam as muralhas da Pontinha e por vezes lamberam a esplanada do Ilhéu, vindo durante a tarde despedaçar-se nos rochedos da praia do Funchal, dez ou onze embarcações, sendo os tripulantes e guardas, que se achavam a bordo, salvos milagrosamente pelo guarda da alfândega Carvalho e por uns marítimos arrojadissimos, distinguindo-se sempre nestas catástrofes Joaquim Dias de Almeida». (Elucidário Madeirense).

"Dart e Novo Beijinho", atirados para o calhau das Fontes de João Dinis a 26 de Outubro de 1842
(Álbum de Emily Genevieve Smith - Museu da Quinta das Cruzes)

1846 - De 8 a 11 de Janeiro. «Houve grandes vendavais no pôrto do Funchal, que arruinaram as obras do cais, e no dia 10 do mesmo mês deu á costa em S. Lazaro o patacho toscano Duque de Sussex». (Elucidário Madeirense).

1848: - 17, 18, 19 e 20 de Novembro. «Houve nestes dias grandes inundações, principalmente no concelho de Santana, sendo arrastadas pelas águas muitas bemfeitorias produtivas e importantes. No Funchal as águas das ribeiras correram com violência, mas, apesar de copiosissimas, não produziram estragos sensíveis». (Elucidário Madeirense);
- 10 de Dezembro. Na baía do Funchal, «perderam-se o iate Senhor dos Passos e a escuna Eugenia».(Elucidário Madeirense);
- 31 de Dezembro. Idem. «Os iates Fevereiro I.º e Boa Fé, ambos portugueses, e os patachos Delfim e Levant, êste americano e aquêle português. Por ocasião desta ultima tempestade, esteve quasi a dar á costa a corveta de guerra inglesa Daphne». (Elucidário Madeirense).

1850: - 10 de Outubro. «Um tremor de terra na direcção LW, que se fez sentir ás 9 horas e meia da noite de 10 de Outubro, mas que não produziu estragos alguns». (Elucidário Madeirense);
- 05 de Dezembro. «Saíra do Funchal com destino ao Pôrto Santo um barco pertencente a João Rodrigues Rei e José Alexandre de Viveiros, que tinha como arrais o maritimo Justiniano Joaquim de Sousa e que conduzia a seu bordo além dos seus proprietarios, mais 13 passageiros e 12 homens de tripulação. Na chamada Travessa, foi esta embarcação surpreendida por um rijo temporal, tendo então os donos dela e os passageiros aconselhado e insistido para que os tripulantes demandassem o ilhéu de Cima ou o pôrto dos Frades e não o pôrto da vila, pelo grave perigo a que estavam expostos por ocasião do desembarque. Não foram infelizmente atendidos êsses rogos e conselhos, e, ao tentarem desembarcar, tornou-se o mar mais agitado com a violencia do vento que soprava, e das 27 pessoas que o barco conduzia só se salvaram 12, tendo 15 encontrado morte horrorosa no meio das alterosas vagas que violentamente se quebravam contra a praia. Entre as vitimas, encontravam-se os donos do barco e algumas mulheres e crianças. A noticia dêste sinistro maritimo causou na ilha do Pôrto Santo e ainda na Madeira a mais profunda emoção». (Elucidário Madeirense).

1856 - 05 e 06 de Janeiro. «Em virtude de chuvas abundantíssimas no Funchal, trouxe a corrente da Ribeira de João Gomes muito entulho que sobrepujou os mainéis entre a foz e o Campo da Barca. Não podendo as águas correr livremente, foram inundar a R. de Santa Maria, as travessas que a cortam, a R. do Ribeirinho de Baixo e o largo do Pelourinho, fazendo em todos estes pontos grandes destroços. A Ribeira de Santa Luzia não causou prejuízos, embora ficasse também entulhada, mas a de S. João fez não pequenos estragos, principalmente nas proximidades da capela. Na Ribeira Brava, na Tabua, na Serra de Água, na Ponta do Sol, no Paul do Mar e noutras localidades houve também grandes devastações produzida pelas águas». (Elucidário Madeirense).

1858: - 05 de Março. «Naufragou no pôrto do Funchal o bergantim inglês Reliance, em consequencia de um forte vendaval, e no dia 15 do mesmo mês teve a mesma sorte o patacho brasileiro Liberato Terceiro, de que era mestre Thomás Whister». (Elucidário Madeirense);
- 20 de Setembro. «Em frente do pôrto da freguesia do Pôrto da Cruz, a legua e meia da costa» (…), «em consequencia de violento temporal, o bergantim francês Homs, de que era capitão F. Azemas, e que se dirigia de Cette para a Martinica. Salvaram-se todos os tripulantes, que naquela freguesia foram largamente socorridos pelo comendador Valentim de Freitas Leal, que era ali abastado proprietário». (Elucidário Madeirense);
- 14 de Novembro. «Entrou no porto do Funchal, quasi a submergir-se, a galera portuguesa Defensor, em viagem do Rio de Janeiro para um dos portos de Portugal, conduzindo a tripulação e alguns passageiros, na totalidade de 23 individuos. A embarcação vinha de porto infeccionado e o mar estava bastante revôlto, sendo a muito custo que puderam desembarcar 16 pessoas, as quais foram isoladas no antigo forte da Pontinha. As outras ficaram a bordo, recusando fazer o desembarque naquela ocasião, mas durante a noite lançaram um escaler ao mar e pretenderam alcançar a terra, tendo morrido seis delas e apenas uma pôde ser salva para além do forte de S. Tiago. A galera encalhou na foz da ribeira de Gonçalo Aires, no dia 16 de Novembro». (Elucidário Madeirense).

1859 - 19 de Dezembro. «Nos primeiros dias do mês de Dezembro de 1859, saíra de Cardiff a galera inglêsa Flying Foame, que se destinava á colonia britanica de Hong-Kong, na China. Um grande temporal arrastou-a até as alturas da Madeira e arremessou-a violentamente contra os cachopos da costa, no sitio chamado Fajã do Manuel, na freguesia do Pôrto Moniz. Das 21 pessoas que havia a bordo, morreram 15, e entre estas o capitão do navio William Lidle e outros oficiais. Este navio, que conduzia um carregamento completo de carvão de pedra, naufragou no dia 19 de Dezembro de 1859». (Elucidário Madeirense).

1860 - 24 de Dezembro. «Na rocha do Ilhéu do Navio, nas costas da freguesia de Santana, naufragou, devido a um grande temporal, no dia 24 de Dezembro de 1860, a galeota holandesa Alfa, que se dirigia de Inglaterra para a ilha de Haiti. A tripulação, que se compunha de 7 individuos, foi salva». (Elucidário Madeirense).

1872 - 22 de Dezembro. «Um violento temporal» (…), «fêz dar á costa para os lados do Lazareto o patacho inglês Champion, morrendo o capitão e mais quatro tripulantes». (Elucidário Madeirense).

1876: - 01 de Janeiro. «Grandes temporais, que arremessam alguns navios á praia do Funchal. Houve inundações neste dia que só causaram prejuízos notáveis na freguesia da Madalena do Mar». (Elucidário Madeirense);
- 13 de Maio. Um temporal na baía do Funchal, fez dar «á costa a escuna inglêsa Orphey, o patacho português Barbosa 2.º, a chalupa portuguesa Moura 7.° e os patachos americanos Maurice e Nellieclifford». (Elucidário Madeirense);
- 11 de Novembro. Idem. Tiveram o «mesmo fim o barco alemão Fear-Not, o iate português Fontes Pereira de Melo e a escuna inglêsa Theodosia. O Valente, pequeno vapor madeirense, foi arremessado sôbre as rochas, por baixo da Quinta Lambert, a mais de 15 de metros sobre o nivel ordinario do mar, por ocasião das tempestades de Novembro, e já no dia 3 de Janeiro uma tempestade menos violenta que as duas a que nos referimos tinha feito naufragar a barca inglêsa Patagonia, junto a Santa Catarina».(Elucidário Madeirense).

1883 - 23 de Julho. «Sentiu-se no Funchal um forte abalo de terra, cerca das duas horas da manhã». (Elucidário Madeirense).

1884: - 13 de Fevereiro. «Entre as 2 e as 3 horas da manhã, sentiu-se no Funchal um abalo de terra, acompanhado de ruído subterrâneo». (Elucidário Madeirense);
- 17 de Maio. «Cerca das 3 horas da manhã, houve um novo abalo, pouco violento», (Elucidário Madeirense);
- 26 de Novembro. Na baía do Funchal, e na na sequência do temporal deste dia, «o mar arrojou á praia a escuna Eulalia e o brigue italiano Torquato». (Elucidário Madeirense);
- 22 de Dezembro. «Sentiram os habitantes do Funchal pelas 3 horas da manhã, dois tremores de terra, tendo o primeiro, o mais violento, durado cerca de 20 segundos e o imediato, cerca de 7 segundos. Estes abalos também se fizeram sentir em Lisboa, pelas 3 horas e 29 minutos da manhã». (Elucidário Madeirense).

Brigue italiano “Torquato”, junto a Santa Catarina, Funchal
(Temporal de 26 de Novembro de 1884 - Joaquim Augusto de Sousa, 1853/1905 - Photographia Museu Vicentes)

188621 de Janeiro. «Ás 8 horas da manhã, sentiu-se um ligeiro tremor de terra no Funchal, que durou cerca de 3 segundos. Uma mulher de Água de Pena, que apanhava lapas no sítio da Queimada, caiu ao mar no momento da oscilação, morrendo imediatamente». (Elucidário Madeirense).

1887: - 07 de Janeiro. «Um abalo de terra pelas 10 horas e meia da noite, acompanhado de ruído subterrâneo». (Elucidário Madeirense);
- 27 de Janeiro. «Outro abalo de terra à uma hora e meia da manhã». (Elucidário Madeirense);
- 06 de Agosto. «E outro a uma hora e vinte minutos da manhã». (Elucidário Madeirense).

1889 - 14 de Janeiro. «Pelas 5 horas e meia da manhã, sentiu-se no Funchal um ligeiro abalo de terra». (Elucidário Madeirense).

1892 - 28 de Fevereiro. Na baía do Funchal, «os temporais deste dia, causaram avarias no molhe da Pontinha». (Elucidário Madeirense).

«Avarias no molhe da Pontinha»
(Foto de 1892, “Os Portos Marítimos de Portugal e Ilhas Adjacentes”, Volume V - Parte I - Adolfo Loureiro, Lisboa, Imprensa Nacional, 1910)

1894 - Deu-se uma grande derrocada na Deserta Grande, de que resultou o mar avançar e recuar sensivelmente nalguns pontos da costa sul da Madeira, «semelhantemente ao que sucedera por ocasião do terramoto de 1755», tendo «o mar subido no Funchal, 5 metros acima da maré cheia, e no norte da ilha, recuado cerca de 100 metros, deixando em seco grande quantidade de peixe». (Elucidário Madeirense).

1895 - 02 e 03 de Outubro. «Uma aluvião deu-se nestes dois dias e produziu grandes estragos nas freguesias de S. Vicente, Faial, Ponta Delgada, Boa Ventura e Seixal. Nesta última freguesia morreu o proprietário Manoel Inisio da Costa Lira. As ribeiras do Funchal trouxeram muita água». (Elucidário Madeirense).

1901 - 08 e 09 de Novembro. «As chuvas abundantíssimas que nestes dois dias caíram no Funchal, inundaram as ruas e caminhos, danificaram muitos destes e provocaram alguns desmoronamentos, principalmente na Levada de Santa Luzia». (Elucidário Madeirense).

1910: - 24 de Novembro. «Pelas 9 horas e 20 minutos da noite, sentiu-se um abalo de terra no Funchal, acompanhado de ruído subterrâneo, que parecia partir do lado de nordeste. No mesmo dia. sentiram-se dois abalos no Curral das Freiras». (Elucidário Madeirense);
- 26 de Novembro. «Houve outro abalo no Funchal, ás 12 horas e 25 minutos do dia. Durou cerca de 4 segundos e a oscilação pareceu horizontal». (Elucidário Madeirense).

1914 - 27 de Dezembro. «Ás 4 horas e 45 minutos da manhã de 27 de Dezembro, sentiu-se um ligeiro abalo de terra no Funchal». (Elucidário Madeirense).

1918 - 25 de Julho. «Pelas 4 horas e 23 minutos da manhã, um abalo de terra violento, sentiu-se não só no Funchal, mas também no Monte, no Jardim da Serra e no norte da ilha, tendo causado prejuízos no estuque dalgumas casas da freguesia da Ponta Delgada. Houve dois abalos quase seguidos, cada um dos quais durou dois segundos, ouvindo-se por essa ocasião um forte ruído subterrâneo». (Elucidário Madeirense).

1920: - 25 e 26 de Fevereiro. «Nestes dois dias fez sentir um violento temporal de vento e chuva que causou inúmeros prejuízos em toda a ilha. As ribeiras que atravessam a cidade, embora trouxessem muita água, não chegaram a transbordar, mas houve inundações em vários sítios, devido á abundância das chuvas e aos ribeiros da Nora, do Til e dos Louros terem ficado obstruídos. No bairro de Santa Maria chegaram a andar barcos nas ruas para conduzir pessoas de uns para outros pontos, e diz-se que um toda a ilha ficaram mais de 500 pessoas sem abrigo, sendo incalculáveis os destroços causados pelo vento N. W. no arvoredo, nos canaviais e em muitas outras culturas. No caminho do Lazareto morreu um indivíduo que se dirigia de noite para sua casa e no molhe da Pontinha morreu um outro que trabalhava no Cabrestante, sendo tal a impetuosidade do vento no dia 25 e parte do dia 26, que era perigoso transitar mesmo nas ruas da cidade. No dia 25, de tarde, foi suspenso, por causa do vento, o serviço de automóveis no Funchal. A vila da Ribeira Brava correu grande risco de ser destruída pelas águas, tendo saído a imagem de S. Bento em procissão e havendo depois preces na igreja paroquial. Em Machico, Santa Cruz, S. Vicente e Camacha registaram-se importantíssimos prejuízos, morrendo uma mulher e uma criança nesta ultima freguesia. Desapareceram, com os respectivos tripulantes, alguns barcos de pesca de Câmara de Lobos, e o barco Arriaga, do Porto Santo, que conduzia 16 passageiros, foi impelido para o sul pelo temporal, sendo encontrado pelo vapor inglês Andorinha, que tomou os passageiros, arribando o barco ás Selvagens». (Elucidário Madeirense);
- 28 de Fevereiro. «Voltou a chover torrencialmente neste dia». (Elucidário Madeirense);
- 02 de Março. «Soprou de novo com grande violência o vento N. W., havendo também fortes aguaceiros, que duraram até á madrugada do dia 3 de Março». (Elucidário Madeirense);
- 08 de Dezembro. «Sentiu-se no Funchal, pelas 5 horas e três quartos da manhã, um ligeiro abalo de terra que a muita gente passou despercebido». (Elucidário Madeirense).

1921 - 05 e 06 de Março. «Caíram nestes dias abundantes chuvas, acompanhadas de trovoada, em toda a ilha, havendo inundações e estragos em Machico e Ribeira Brava. Em Machico, as águas subiram nalguns pontos quase ao primeiro andar das casas, e na Ribeira Brava morreram quatro crianças, sendo três em virtude do desmoronamento dum prédio e uma arrastada pelas águas». (Elucidário Madeirense).

1923 - 01 de Outubro. «Ás 5 horas e 6 minutos da tarde sentiu-se um ligeiro abalo de terra no Funchal, que durou apenas 2 segundos. Este abalo também se fez sentir na freguesia de S. Vicente e, provavelmente, noutros pontos da ilha». (Elucidário Madeirense).

1926 - 15 e 16 de Dezembro. Um violento temporal assolou o Porto do Funchal, acompanhado de ventos de sul e de sudoeste e de forte precipitação.
A agitação marítima provocou o naufrágio do iate «Physalia da Expedição Portuguesa do Pacífico», que se encontrava fundeado na baía do Funchal, provocando a morte a seis pessoas. Pereceram, «o Sr. Humberto Passos Freitas e uma senhora inglesa e quatro tripulantes». O iate foi impelido pelas ondas alterosas, «aproximou-se sem governo», e às 19H30, «tocava em frente do Teatro Circo», envolvido numa «enorme vaga». Várias «fragatas de carvão» encalharam e o «muro sul do Campo Almirante Reis foi derrubado em toda a sua extensão». (Diário de Notícias, Funchal, 16 de Dezembro de 1926).

1929 - 06 de Março. «Um desagregamento de terras, no sítio do Estreito da Vargem, em S. Vicente, produzido por uma aluvião, soterrou 11 moradias de agricultores, que abrigavam 29 famílias, morrendo 32 pessoas e ficando 3 gravemente feridas. Muitas cabeças de gado, importantes vinhedos e mais plantações se perderam nesta horrível catástrofe». (Ilhas de Zargo).

1930 - 04 de Março. «Dá-se o desagregamento duma enorme porção de rocha do Cabo Girão, no sítio do Rancho, que arrastou terrenos da altura de 400 m para o mar, formando uma ponta de cerca de 300 m. O impulso dado ao mar levantou ondas alterosas que se desdobraram no sentido de leste, invadindo a Ribeira do Vigário, em Câmara de Lobos, onde surpreenderam 24 pessoas, homens, mulheres e crianças, das quais morreram 16, ficaram cinco feridas e desapareceram 3». (Ilhas de Zargo).

“Desagregamento duma enorme porção de rocha do Cabo Girão”
(Foto, Madeira Arquipélago)

1931 - 03 de Outubro. O Funchal esteve sob uma violenta trovoada e chuvas torrenciais, que provocaram inundações na cidade. Na rua de Santa Maria, a água atingiu uma altura considerável, sendo necessário os bombeiros evacuar pessoas usando uma pequena embarcação. O Largo das Fontes, igualmente, foi inundado pela água. As ruas da cidade pareciam, autênticos ribeiros.
O caudal das ribeiras de São João, de Santa Luzia e de João Gomes, aumentaram invadindo as suas ruas adjacentes. (Diário de Notícias, Funchal, 04 de Outubro de 1931).

1932 - 18 de Agosto. Madalena do Mar. «No litoral desta freguesia, desemboca a ribeira da Madalena, que nas alturas em que atravessa a freguesia dos Canhas sofreu, na sua margem esquerda, um grande desmoronamento de terreno (…), que causou enormes prejuizos e obstruíu em grande parte o leito da mesma ribeira». (Elucidário Madeirense).

1934 - 04 de Fevereiro. «Caiu granizo sobre o Funchal em tanta abundância que cobriu telhados e ruas como não havia memória, apesar de a temperatura mínima ser de 11,5° em recinto fechado, e de 10,3° ao ar livre». (Ilhas de Zargo).

1939 - 30 de Dezembro. A ocorrência em 18 de Agosto de 1932, «contribuíu em grande parte para que», neste dia, «o caudal da ribeira, com as grandes invernias que então caíram tomasse as mais assustadoras proporções e arrastasse na sua passagem algumas dezenas de habitações, desse a morte a várias pessoas e causasse incalculáveis prejuizos, constituindo uma das maiores calamidades provocadas pelas inundações nesta ilha». Morreram 4 pessoas e foram destruídas 40 casas na Madalena do Mar». (Elucidário Madeirense).

1945 - 14 e 15 de Outubro. O forte temporal abateu-se sobre a Madeira, e a cidade do Funchal ficou com muitas ruas inundadas, em virtude do tempo de sudoeste, acompanhado de vento forte.
As chuvas torrenciais e o vento, fizeram destruições consideráveis, sobretudo em terrenos de cultivo e muitas casas ficaram sem telhas, um pouco por toda a Ilha.
Mas, o desastre mais grave foi na Madalena do Mar, onde a enxurrada provocada pela ribeira do mesmo nome, atingiu as casas aí existentes, pondo mesmo em perigo a igreja matriz.
Na foz da ribeira e no sítio conhecido por Banda d’Além, 25 famílias, com cerca de 130 pessoas, perderam as suas «pequenas casas». Estas pessoas, que ficaram sem abrigo, foram evacuadas para o Funchal e recolhidas no Lazareto. (Diário de Notícias, Funchal, 16 de Outubro 1945).

1956 - 03 de Novembro. «Aluvião» (...) «que atingiu devastadoramente as freguesias de Machico, Santa Cruz, Porto da Cruz, Água de Pena e Santo da Serra, segundo a ordem de sua maior intensidade, causando prejuízos incalculáveis em prédios urbanos e rústicos, destruição de pontes e estradas, arrasamento de campos de cultura, morte de pessoas e gado com a proporção e violência dum verdadeiro cataclismo. Mais uma vez foi atingida pela cheia da Ribeira, que a margina, a capela do Senhor dos Milagres, construída primitivamente pela Ordem Militar de Cristo, no local onde se celebrou a primeira Missa da descoberta da ilha (…). Situa-se esta capela na Banda d’Além, a leste da Vila de Machico, bairro de pescadores, que sofreu o mais violento embate da corrente, arruinando algumas habitações». (Ilhas de Zargo).
«O Chefe do Distrito solicitou ao senhor Governador Militar, Brigadeiro Gervásio Campos de Carvalho, a colaboração de tropas da guarnição desta ilha nos trabalhos de remoção de terras e pedregulhos em Santa Cruz arrastados pela enxurrada – no que foi pronta e eficazmente atendido.»
«As freguesias do Porto da Cruz, Machico, Santa Cruz, Água de Pena e Santa Cruz foram (…) teatro de uma horrível tragédia. Repetiram-se, ali, as aluviões de 9 de Outubro de 1803 e 24 de Outubro de 1842». (Diário de Notícias, Funchal, 04 de Novembro de 1956).

Rua de Santa Cruz, após a aluvião em Santa Cruz de 03 de Novembro de 1956
(Pub. in Origens, n.º 7, revista cultural, Casa da Cultura de Santa Cruz, coordenação de Ezequiel Vieira, Dezembro, 2002, p. 8 - Arquipélagos)

1958 - 21 de Dezembro. Com os temporais do quadrante sul, «normais nesta quadra do ano», registou-se na manhã do dia 21 de Dezembro a ocorrência de fortes chuvadas em toda a costa sul da Ilha da Madeira, com incidência mais intensa nas zonas que constituem as bacias hidrográficas na Ribeira Brava, e nas ribeiras de João Gomes, Santa Luzia e São João, no Funchal.
Segundo o Boletim n.º 12 de Dezembro de 1958 da Junta Geral do Distrito Autónomo do Funchal «...as cheias que em consequência se registaram foram bastante influenciadas, na sua formação, pelo estado de saturação em que se encontravam os terrenos devido às abundantes chuvas do dia 19 de Dezembro, com 106,7 mm na Encumeada de São Vicente e 181,8 mm no Areeiro». Na Ribeira Brava e através de «informações colhidas no local, verificou-se que no dia 20 de Dezembro, e até às 6 horas do dia 21, a precipitação foi bastante fraca. A partir dessa hora começou uma chuva torrencial que se prolongou até às 9 horas, altura em que praticamente cessou de chover». A «altura máxima da cheia» na vila da Ribeira Brava, «ocorreu cerca das 10 horas, ocasião em que se verificou a destruição de um troço do muro de suporte da estrada nacional n.º 104, no Km 1,8».
No Funchal, e segundo dados fornecidos pelo Observatório Meteorológico, citado pelo referido Boletim, «o udógrafo do Funchal registou no dia 21, entre as 4,30 horas e as 8,30 horas uma precipitação de 50,9 mm com o máximo de 25,1 mm das 6,50 horas às 7,40 horas».
Ainda segundo o mesmo Boletim, no «udógrafo do Areeiro, por avaria do mesmo, só foi possível apurar a ocorrência de um chuvada de 60 mm no período compreendido entre as 4 e as 8 horas daquele mesmo dia. A máxima altura das cheias nas ribeiras do Funchal verificou-se cerca das 8 horas não tendo havido, felizmente, quaisquer consequências lamentáveis a assinalar.» (Boletim n.º 12 de Dezembro de 1958 da Junta Geral do Distrito Autónomo do Funchal, pp. 1-2 e Diário de Notícias, Funchal, 22 de Dezembro de 1958).

Danos na estrada da Ribeira Brava - Encumeada de São Vicente
(Boletim n.º 12 de Dezembro de 1958 da J.G.D.A.F)

1962: - 24 de Outubro. Na zona oeste da Madeira e no concelho da Calheta na freguesia da Fajã da Ovelha, na madrugada deste dia, pelas 03 horas «um tornado (?) violento atingiu o sítio da Raposeira, destruiu, quase tudo o que encontrou pela frente. Um autocarro da Empresa Automobilista da Ribeira Brava, Lda., com a matrícula MA 26-13, que se encontrava estacionado - para sair às 05 horas da madrugada, foi projectado a 5 metros de distância.» Várias residências ficaram completamente «destelhadas». Árvores, postes de electricidade e muros foram arrancados. A maior parte dos residentes saíram das suas casas em pânico e não houve «desastres pessoais» a lamentar. Os sítios próximos, da Maloeira e da Lombada dos Cedros, «nada sofreram». Na zona este da Madeira, e no sítio Porto Novo, na estrada distrital, caiu uma pedra de um muro com «cerca de 4.000 quilos», em virtude das copiosas chuvas que caíram por toda a ilha. (Diário de Notícias, Funchal, 25 de Outubro 1962).
- 26 de Outubro. Nas freguesias da Ponta do Pargo e Achadas da Cruz choveu torrencialmente. As ribeiras e os córregos transportaram «água a transbordar». Não «havia memória de chuva tão abundante» e o «povo» ficou alarmado com receio de derrocadas. Muitas das casas e palheiros ficaram cheios de água. Um aqueduto, no sítio da Igreja das Achadas da Cruz, ficou obstruído, provocando «um grande lago e ameaçou inundar as moradias das imediações».
No norte da Madeira e em virtude de derrocadas, «ficou interrompida a estrada de São Vicente para o Porto do Moniz». (Diário de Notícias, Funchal, 27 de Outubro 1962).
- Nesta mesma data e no Porto Santo, «choveu torrencialmente em toda a Ilha. As águas transbordaram da vala para captação das chuvas, no sítio do Dragoal, precipitando-se pela encosta e penetrando nas casas de moradia e estabelecimentos da vila, onde, nalguns sítios, atingiu cerca de um metro de altura.
No novo hotel, as caves onde se encontram as caldeiras ficaram inundadas.
No aeroporto não há notícias de que tivesse havido estragos ou outros prejuízos ocasionados pelas chuvas.
Nas ribeiras que atravessam a ilha a corrente era impetuosa, sendo arrastados, ao que parece, três suínos.» (Diário de Notícias, Funchal, 27 de Outubro 1962).

1970: - 09 de Janeiro. «Em consequência de mau tempo de sudoeste, o mais chuvoso e catastrófico de terra e de mar, na Madeira, alagou de chuvas torrenciais, durante três semanas, a parte sul da ilha. A ribeira que atravessa todo o Concelho da Ribeira Brava, cujo nome provém das violentas e tradicionais cheias daquele curso de água, transbordou das margens, na data referida, em quantidade de aluvião, assolando campos, destruindo culturas, derrubando casas, submergindo estradas, causando mortes. Na Vila da Ribeira Brava destruiu o miradouro e a rua marginal, causou duas vítimas; na Serra d’Água as enxurradas destruíram moradias e cortes de gado, vitimaram quatro pessoas e animais. Das casas abatidas apenas escapou uma criança, Helena Maria, de três anos de idade que ficou presa nos escombros algumas horas e donde saiu sorridente, na inconsciência do perigo, com pasmo dos seus salvadores. Um autocarro turístico cheio de estrangeiros foi surpreendido entre as duas freguesias, ficando bloqueado na Estrada Marginal por efeito de dois enormes rombos naquela via, o mesmo sucedendo a um carro ligeiro com ocupantes alemães. Os Bombeiros do Funchal trabalharam quase toda a noite sob tremenda invernia para salvar os surpresos viandantes. Esta catástrofe alarmou toda a população madeirense, deixando as famílias sinistradas na mais desoladora e triste situação com a perda de tudo quanto possuíam.
O mar também invadiu a Vila da Ribeira Brava, causando prejuízos de irremediável reparo e substituição. Mais uma vez aquela Ribeira justificou o nome de Brava que tem.
Nestes dias, «caiu 42 mm de precipitação nas 24 horas: 4 mortos e 4 feridos na Ilha e elevados prejuízos materiais na Ribeira Brava e Serra d’Água». (Adenda às Ilhas de Zargo).
- 08 de Março. «Uma tromba de água flagelou o Porto Santo durante 11 horas». (Adenda às Ilhas de Zargo).
No Porto Santo, ocorreu uma forte trovoada e choveu torrencialmente, durante a madrugada deste dia. Entre os habitantes do Porto Santo, «não há memória de uma chuva tão torrencial em tão curto espaço de tempo». «A chuva fez-se sentir com maior intensidade na vila e no lado leste da ilha, tendo causado muitos estragos em paredes, culturas e estradas, como a de acesso ao Aeroporto, havendo zonas onde o próprio asfalto foi arrancado.» As águas torrenciais, provocaram a morte duma criança no sítio do Tanque. (Diário de Notícias, Funchal, 09 de Março de 1970).
Santo António - Ribeira Grande ou Ribeira de São João
(Foto de autor desconhecido)

1972: - 20 de Janeiro. «Tremor de terra na Madeira e Porto Santo. A ausência de um sismógrafo nos serviços de meteorologia impediu medir a intensidade do sismo». (Adenda às Ilhas de Zargo).
- 21 de Setembro. Na freguesia de Santo António, no sítio da Ribeira Grande, pelas quatro horas da manhã, o caudal da ribeira subiu subitamente face à elevada precipitação nas zonas altas do Funchal. Águas e rochas, saíram do leito da Ribeira de São João, conhecida localmente por Ribeira Grande ou de Santo António, invadiram umas «casas toscas de habitação», existentes nesta localidade, provocando «duas mortes e o desaparecimento de uma jovem mãe». Um «cadáver de um bebé foi encontrado junto ao cais regional».
Se não fosse o ruído forte da trovoada e o turbilhão da enxurrada, pelas 04 horas de madrugada, que preveniram os habitantes locais, segundo os mesmos, que fugiram para locais seguros, muitos deles teriam sido arrastados pela força das águas que invadiram o pequeno “bairro de lata”. (Diário de Notícias, Funchal, 22 de Setembro de 1972).

1973 - 20 e 21 de Dezembro. «Violento temporal na costa norte, especialmente Ribeira da Janela e Porto Moniz: vários carros boiaram nas estradas». (Adenda às Ilhas de Zargo).
Uma «grande levadia» causou enormes prejuízos na costa norte da Ilha da Madeira, «mormente no Porto Moniz e Ribeira da Janela». Nesta última localidade, o mar penetrava pela foz da ribeira «indo as ondas embater com violência no edifício da central hidroeléctrica». Um autocarro da carreira São Vicente - Santa do Porto Moniz, na estrada do Seixal, no sítio da Fajã da Parreira, foi surpreendido pelas ondas e os seus ocupantes (cerca de trinta) fugiram ilesos, mas o autocarro ficou destruído. Igualmente, três automóveis e os seus ocupantes, que por esta estrada circulavam, conseguiram fugir à fúria das ondas são e salvos.
No Porto do Moniz, uma embarcação de pesca da praça de Câmara de Lobos, que ali se tinha refugiado, foi arrojada contra a praia, desmantelando-se e acabando-se por se afundar.
No Porto da Cruz, todo o seu litoral sofreu danos em infra-estruturas e terrenos agrícolas, que se encontravam próximas do mar.
Os prejuízos foram calculados em cerca de 200 contos e não houve desastres pessoais. (Diário de Notícias, Funchal, 22 de Janeiro de 1973).

1975 - 26 de Maio. «Um sismo da escala 6 provocou danos na Madeira. O epicentro localizou-se a 300 milhas da Madeira». (Adenda às Ilhas de Zargo).

1977: - 03 de Dezembro. «Chuva diluviana e vento ciclónico flagelaram o Porto Santo, inundando estradas e interrompendo as ligações com o exterior». (Adenda às Ilhas de Zargo).
Na madrugada de 03 de Dezembro, no Porto Santo e face à forte precipitação acompanhada de forte trovoada, «a população acordou em pânico». Entre as 07 e as 08 horas, a «chuva abundante fez transbordar as represas e transformou as ruas em autênticas ribeiras». Assim, «ficaram todas as estradas bloqueadas, também pela lama arrastada pela água». As casas nas zonas mais baixas, foram inundadas de «modo assustador, devido ao entupimento dos esgotos».
A água correu com tanta força que tudo arrastou, inclusivamente, chegou a «cavar os alicerces de duas moradias que ficaram suspensas». Os prejuízos foram consideráveis, «na agricultura e o gado foi quase dizimado», e, a água lamacenta «arrastou tudo o que encontrou pela frente». (Jornal da Madeira, 04 de Dezembro de 1977);
- 20 de Dezembro. «Um forte temporal assolou a Madeira originando 4 mortos». (Adenda às Ilhas de Zargo).
Em consequência da forte precipitação que assolou a Madeira, muitas das comunicações terrestres foram interrompidas em várias localidades da Ilha, em virtude de várias derrocadas provocadas pela abundância das águas que desceram as encostas. As zonas mais lesadas foram a Camacha, Encumeada, Serra de Água, Estreito de Câmara de Lobos e o Curral das Freiras.
No Funchal, em resultado de várias inundações a Câmara Municipal do Funchal, teve que alojar várias famílias num total de 26 pessoas. Na freguesia do Monte, no sítio do Tanque «um menino» ficou soterrado no meio dos escombros da habitação onde residia, empurrada por terrenos que cederam nas traseiras da mesma.
O incidente mais dramático aconteceu no Jardim da Serra, numa encosta oposta à Quinta do Jardim da Serra, desprendeu-se uma grande «quebrada» entupiu um ribeiro, que se desviou do seu percurso normal atingindo uma habitação, arrastando pela fúria das águas, «uma mãe e duas filhas». (Jornal da Madeira, 21 de Dezembro de 1977).

Calheta
(Foto do Diário de Notícias)

1979: - 06 e 07 de Janeiro. «Forte temporal provocou milhares de contos de prejuízo na Região. O mau tempo durou até ao dia 23 de Janeiro, originando 9 mortos na Fajã do Penedo» (Adenda às Ilhas de Zargo, segundo esta fonte, foram 9 mortos - equívoco - mas na verdade, foram apenas 6, julgamos que foi lapso de impressão).
Entre o dia 06 e 07 de Janeiro, em consequência de um forte vendaval acompanhado de forte precipitação na Madeira, provocou um verdadeiro caos em várias localidades da Ilha e prejuízos incalculáveis na agricultura. Houve, «centenas de casas destelhadas e árvores derrubadas». Apenas, «um canal de televisão pode funcionar». Igualmente, houve «falta de energia eléctrica em muitos lares» e as comunicações telefónicas em diversas freguesias rurais, foram cortadas ficando muitas localidades sem comunicações com o exterior.
No Porto do Funchal, barcos de recreio foram destruídos e afundados. O aeroporto foi encerrado durante o dia 06 e 07 de Janeiro e em Machico «o vento varreu o vale causando diversos prejuízos».
A precipitação no Funchal às quatro horas do dia 06, foi «de 54 mm» e fez aumentar o caudal das ribeiras. A média da velocidade do vento, registada pelo Observatório Meteorológico do Funchal, «foi de 45 e 55 Km/h e a rajada máxima de 87,5 Km/h pelas 09H15, desse mesmo dia».
No Funchal, até o vento em fúria fez levantar a cobertura do circo “Brasil” e o mar provocou elevados estragos no Arsenal de São Tiago. (Diário de Notícias da Madeira, 07 de Janeiro de 1979);
- De 20 a 24 de Janeiro. Nestes dias, um forte temporal acompanhado de chuva diluviana e vento “ciclónico” de sudoeste flagelou a Madeira. Várias localidades ficaram completamente isoladas e o mar enfurecido devastou o litoral.
As ribeiras das zonas oeste, leste e nordeste da Madeira, mais precisamente na Calheta, Ponta do Sol, Ribeira Brava, Machico e Porto da Cruz, aumentaram o seu caudal destruindo «estradas nacionais», municipais e pontes.
No Porto da Cruz e no sítio da Referta, uma mulher desapareceu soterrada, por uma derrocada quando «procurava o marido». Nesta mesma localidade, um carro atingido por uma outra derrocada «foi levado até o mar».
No Faial e no sítio do Lombo do Galego, «um casal e sete filhos perderam todos os seus haveres».
Em Machico e no sítio da Ribeira Grande, em consequência das enxurradas, aqui ocorridas, duas casas foram destruídas e pereceram duas pessoas, uma das quais, uma criança. Esta, foi levada pela forte corrente da ribeira e dias depois, foi encontrada no Calhau das Eiras, junto ao sítio da Prainha na freguesia do Caniçal.
Na freguesia da Camacha, e na sequência de uma enxurrada que invadiu uma casa e morreu uma pessoa idosa.
Na freguesia dos Canhas, o desabamento de três casas provocado por uma outra enxurrada, soterrou três crianças, salvando-se apenas uma delas. Uma ribeira «encheu», transbordou para uma «estrada nacional», causando o acidente.
No concelho da Calheta, a vila foi arrasada pela ribeira local, ficando sem acessos, comunicações e luz eléctrica. No Arco da Calheta e no sítio das Faias, um casal morreu soterrado. A Central Hidroeléctrica da Calheta foi inundada e estrada de acesso foi obstruída por um ribeiro local. As freguesias do Paul do Mar e do Jardim do Mar, ficaram isoladas por alguns dias, igualmente, em consequência de várias derrocadas.
Na Fajã do Penedo, na Freguesia de Boaventura, uma derrocada (ou quebrada) de grandes dimensões soterrou uma viatura e os seus quatro ocupantes e duas pessoas que no momento passavam apeadas na estrada, fazendo o total de 06 vítimas.
No rescaldo deste temporal que assolou a Madeira, que se transformou numa aluvião, para além dos milhares de contos de prejuízos em infra-estruturas e na agricultura, terminou com o «rescaldo dramático de 14 mortos». (Diário de Notícias, Funchal, 21, 22, 23, 24, 25, 26 e 27 de Janeiro de 1979).

1982 - 06 e 07 de Fevereiro. «Violento temporal no litoral da Madeira». (Adenda às Ilhas de Zargo).
A Forte agitação marítima provocou a destruição de várias embarcações e prejuízos de milhares de contos em infra-estruturas no litoral madeirense. O mar, «com vagas que ultrapassou os quatro metros, segundo o Observatório Meteorológico do Funchal, ficou a dever-se a uma depressão associada a uma superfície frontal localizada a noroeste da Madeira, muito próximo da Ilha, e a deslocar-se lentamente para nordeste».
Foi dado como desaparecido, «o barco de pesca “Filomen de Freitas” que regressou ao porto do Funchal pelos meios». Em Machico, «quatro embarcações encalharam na praia».
No Funchal, «a Avenida do Mar transformou-se em lago no troço compreendido entre a Capitania e a Ponte de S. Lázaro». O temporal, «começou às 11 horas do dia 6, mas atingiu a maior intensidade a partir 1 hora da madrugada do dia 7». (Diário de Notícias da Madeira, 07 de Fevereiro de 1982).

1984 - 02 e 03 de Março. A Madeira foi fustigada por um forte temporal. A «Ponte do Faial ruiu», interrompendo a ligação rodoviária com a freguesia de Santana. Um «trabalhador foi arrastado pelas águas da Ribeira dos Socorridos». Deu-se um aluimento de terras no sítio do Galeão na freguesia de São Roque, em cima de uma casa, ficando desalojada uma família. A Estrada Regional n.º 104, entre as freguesias da Ribeira Brava e a da Serra de Água, uma derrocada no sítio da Meia Légua «reteve cerca de uma centena de turistas». (Diário de Notícias da Madeira, de 03 e 04 de Março de 1984). 

1985 - 06, 07 e 08 de Fevereiro. Nestes dias, um forte temporal atingiu a ilha da Madeira. No Funchal, as «ruas e avenidas transformaram-se em lagos, foram o resultado das fortes chuvadas». Houve, «inundações nas Ruas de 5 de Outubro, das Hortas, de Santa Maria, Caminho do Comboio etc. e na zona do Lazareto».
Analogamente, em Machico, «houve inundações numa residência no Sítio da Serra de Água e na Escola Secundária, tendo as aulas sido suspensas».
Em consequência da forte agitação marítima, naufragou junto às ilhas Desertas, «próximo do local denominado por Doca» o barco de pesca “São Avelino” com seis tripulantes a bordo. Foram mais tarde, «resgatados sãos e salvos por uma outra embarcação denominada de “Arca”, que os transportou para o Porto do Funchal».
Igualmente, a forte agitação marítima, «atingiu proporções elevadas nos concelhos da zona Oeste da Madeira, com particular relevo para a Ribeira Brava e Ponta do Sol, onde o mar invadiu alguns locais, provocando estragos assinaláveis». Mas foi no Paul do Mar, mais precisamente no sítio do Serrado da Cruz, que estes estragos mais se fizeram sentir, onde foram destruídas algumas residências, levando os habitantes a «pedir uma muralha de protecção».
Várias derrocadas, condicionaram o trânsito ao norte e sul da Ilha: a estrada entre o Seixal e a Ribeira da Janela, e a estrada entre a Tabua e a Ponta do Sol. (Diário de Notícias da Madeira, de 07 e 08 de Fevereiro de 1985).
«O mar invadiu a Ribeira Brava provocando avultados prejuízos e partindo o cais a meio.» (Adenda às Ilhas de Zargo).

1989 - 27 de Setembro. Neste dia, a forte precipitação que caiu sobre a Madeira, provocou inundações no Funchal, Machico e Santa Cruz. Os caudais das ribeiras aumentaram em consequência das chuvas torrenciais. (Diário de Notícias da Madeira, 28 de Setembro de 1989).

1990 - 18 de Setembro. «A excessiva precipitação sobre o Funchal provocou um autêntico caos na cidade e a morte de um «casal de madeirenses», cujo carro ficou soterrado por pedras e terras que se depreenderam de um muro à Rua Carvalho Araújo, junto ao cais molhe da Pontinha.» A «chuva de 45 minutos», provocou inundações na Rua das Fontes e no Largo do Pelourinho. (Diário de Notícias da Madeira, de 19 de Setembro de 1990).

1991: - 24 Outubro. A vila de Machico foi atingida por um forte temporal. As fortes chuvadas nesta freguesia fizeram subir o caudal da ribeira.
«O mau tempo assolou o norte da ilha. No Faial e Santana registaram-se algumas derrocadas e inundações. Não houve registo de quaisquer vítimas a lamentar». (Diário de Notícias da Madeira, de 25 de Outubro de 1991);
- 29 de Outubro. «Funchal, Machico, Santa Cruz e Câmara de Lobos, foram os concelhos mais afectados pelas fortes chuvas».
No Funchal e no Largo do Socorro, «as enxurradas provocaram a queda de um muro». Em Machico, e «no sítio da Ribeira Grande e Maroços, o ribeiro encheu de entulho e a água rebentou com a estrada.» Na zona do Garajau, a «ribeira transbordou e as enxurradas interromperam a estrada», causando avultados prejuízos. (Diário de Notícias da Madeira, 30 de Outubro de 1991).

Marina do Funchal - 1993
(Foto do autor)

1993 - 29 de Outubro. Uma aluvião, considerada uma das mais violentas que atingiu a Madeira afectou a cidade do Funchal em particular, que ficou irreconhecível, confusa e acordou com o balanço de 5 mortos e 4 desaparecidos e cerca de 400 desalojados, e com elevados prejuízos em infraestruturas públicas e instalações do sector privado. O total de prejuízos ascendeu a quase seis milhões e meio de contos.
A chuva diluviana, caída na noite de 28 para 29 na cidade do Funchal, fez transbordar as ribeiras, de João Gomes, de Santa Luzia e de São João, na cidade do Funchal. A ribeira dos Socorridos, no limite oeste da cidade, imitou as anteriores. O intenso azul da baía do Funchal mudou para um castanho-escuro.
A marina do Funchal reteve grande quantidade de detritos e alguns corpos humanos.
O mar agitado destruiu várias embarcações.
A parte baixa da cidade capital ficou coberta de lama, pedras e troncos (as fotos “falam” por si). Muitas lojas foram arrasadas e inundadas e armazéns foram destruídos junto às margens das ribeiras. As estradas ficaram intransitáveis e algumas pontes foram destruídas. As escolas encerraram e houve falta de água potável durante quinze dias em várias localidades da cidade. Muitas viaturas foram arrastadas pela força das águas.
Na freguesia da Santo António, os acessos ao Curral das Freiras foram atingidos pelo temporal, sendo o caso mais grave, no sítio do Vasco Gil, onde uma escola e uma carrinha foram destruídas. Várias residências neste mesmo sítio foram afectadas pela enxurrada trazida pela ribeira local (Ribeira do Vasco Gil). Nesta mesma freguesia e no sítio da Ribeira Grande, uma casa foi literalmente arrasada pela enxurrada, transportada pela Ribeira de São João, também conhecida localmente por Ribeira Grande. Esta mesma ribeira, igualmente, e mais a jusante, junto ao Bairro de São João, transbordou as suas margens e atingiu parte das residências e ruas, do mesmo bairro, transformando-o como parte do leito dela própria.
Os concelhos de Câmara de Lobos, Santa Cruz e Machico, também foram cenários de tragédia, mas não se registaram mortes. No concelho de Machico e na freguesia do Caniçal o «mar alteroso afundou pesqueiros em série» (cerca de 09 embarcações).
As previsões do Instituto de Meteorologia e Geofísica da Madeira, para o dia de 29 de Outubro, em declarações prestadas aos órgãos de comunicação social da Madeira, eram de mau tempo e forte precipitação e vento. Segundo o mesmo instituto, a Madeira estava sobre «a acção de uma depressão bastante cavada, localizada a sudoeste da Região». Essa depressão deslocava-se «lentamente para nordeste».
O temporal deste dia, de 29 de Outubro surpreendeu todos os madeirenses. Destruiu, provocou inundações, devastação e morte e relembrou outras datas históricas de acontecimentos idênticos que aconteceram na cidade do Funchal em particular, como a aluvião de 09 de Outubro de 1803. 

Avenida do Mar - Funchal - 1993
(Foto do autor)

1997 - 19 e 20 de Outubro. A forte precipitação sobre a Madeira fez aumentar os caudais das ribeiras dos Socorridos, de S. João, de Santa Luzia , de João Gomes, de Machico e do Faial.
Na Ribeira dos Socorridos, no sítio do Engenho Velho, a ponte velha foi destruída e juntamente com ela a conduta de abastecimento de água ao reservatório do Pico da Torre, deixando a vila de Câmara de Lobos sem água potável.
Na cidade do Funchal, verificou-se uma enorme acumulação de pedras e terras nas três ribeiras que a atravessam. A enxurrada, só não transbordou as muralhas de protecção, porque tinham sido desassoreadas.
Na Camacha, desmoronamentos causaram estragos, arrastando três carros. Em Machico, a agitação marítima destruiu três canoas.
O norte da Ilha (São Vicente e Porto do Moniz), ficou sem comunicações telefónicas em virtude de «um desvio das antenas receptoras do «sinal herteziano». Uma derrocada ocorrida no Seixal soterrou uma máquina escavadora ferindo o seu manobrador e um outro trabalhador da DRE. Na altura procediam à limpeza de uma estrada naquela localidade. (Diário de Notícias da Madeira, 20 e 21 de Outubro de 1997).

Praia do Garajau
(Foto do Diário de Notícias da Madeira)

1998 - 01 de Fevereiro. Chuvas e ventos fortes eram as previsões de “mau tempo” para a Madeira, emitido pelo Serviço Regional de Protecção Civil. De facto, a chuva intensa e ventos fortes fustigaram o Funchal, Santa Cruz, Câmara de Lobos e Ribeira Brava. Na Camacha, vários sítios foram afectados por derrocadas nas estradas e inundações em residências. No Garachico, uma derrocada foi fatal para um «homem de 36 anos». No Garajau, as casas existentes na praia foram soterradas e inundadas, «deixando 19 pessoas desalojadas» e vários carros foram arrastados pela torrente de um ribeiro. Na Ribeira Brava, o Quartel dos Bombeiros e o Centro de Saúde ficaram «alagados». No Funchal, e no Ribeiro Seco de São Gonçalo, que estava «obstruído devido às obras da Cota 200», transbordou e provocou inundações em várias habitações, «transformando as artérias vizinhas num autêntico mar de lama». (Diário de Notícias da Madeira, 02 e 03 de Fevereiro de 1998).

2001 - 6 de Março. Um forte temporal abateu-se sobre S. Vicente e o Curral das Freiras. A história repetiu-se 72 anos depois no vale de S. Vicente. Nesta localidade do norte da ilha da Madeira ocorreram enxurradas no sítio do Loural - Rosário, que ao atingir a Via Expresso Funchal - S. Vicente, empurrou automóveis para a ribeira provocando 2 mortos e 2 desaparecidos.
No Curral das Freiras uma outra enxurrada soterrou e arrasou várias habitações no sítio das Balseiras onde ficaram desalojadas cerca de 50 pessoas.
Simultaneamente, ocorreram movimentos de vertente em vários sítios em S. Vicente e no sítio do Pico do Furão, Curral das Freiras. Nesta localidade os habitantes foram evacuados por razões de segurança.

São Vicente - 2001
(Foto do autor)

2006: - 12 de Janeiro. Um sismo de magnitude 3,5 na escala de Richter foi sentido de madrugada na Ilha da Madeira. O sismo foi sentido na região do Funchal com intensidade máxima II-III na escala de Mercalli modificada. Segundo informações do Instituto de Meteorologia, o abalo, que atingiu uma magnitude de 3,5 na escala de Rischter, foi sentido pelas 04H12 e teve o epicentro localizado a cerca de 66 quilómetros a sul de Porto Santo;
- 24 de Outubro. Devido ao mau tempo que se fez sentir no dia 23 de Outubro, uma derrocada arrastou para o Mar, uma viatura ligeira com dois passageiros na estrada junto ao Véu da Noiva, no Seixal. A viatura caiu de uma altura de 50 metros. Segundo informações de testemunhas oculares (não confirmado oficialmente), os passageiros do veículo sinistrado terão saído do mesmo para tirar algumas fotos do Véu da Noiva (Queda de Água). Após terem retomado a marcha, foram apanhados pela derrocada.

Ribeiro da Cova do Pico - Anjos - Ponta do Sol
(Após chuvas torrenciais - Foto do Kamiros)

2007: - 16 e 17 de Novembro. O Instituto de Meteorologia colocou o Arquipélago da Madeira, sob alerta laranja. «Chuva e vento fortes, com rajadas na ordem dos 100 quilómetros horários nas zonas montanhosas», eram as previsões meteorológicas. O Serviço Regional de Protecção Civil recomendou a «tomada das necessárias e habituais medidas de precaução e desaconselhou os percursos, quer em viatura quer a pé, sobretudo nas zonas montanhosas e vertentes expostas»;
18, 19 e 20 de Novembro. as fortes chuvas que se fizeram sentir com grande intensidade nestes dias na Madeira, provocaram várias derrocadas na Estrada Regional, entre a Encumeada e o Paul da Serra (ER 228), sendo esta encerrada a todo o trânsito. Os ventos fortes derrubaram várias árvores, de entre as quais, uma destruiu cabos de alta tensão no sítio do Curral dos Romeiros.
No Funchal houve várias inundações com «arrastamento de lama» que danificaram algumas viaturas na zona oeste da cidade. Os Bombeiros Municipais do Funchal foram chamados a acudir em várias inundações e em dois casos de queda de árvores. Por seu turno, os Voluntários Madeirenses registaram várias saídas para inundações, sendo a mais relevante a do túnel rodoviário "Francisco Franco".
Os Bombeiros de Câmara de Lobos desobstruíram uma estrada devido à queda de árvores, na zona do Cabo Girão.
O movimento no Aeroporto da Madeira decorreu com normalidade.
- 21 e 22 de Novembro. o Instituto de Meteorologia previu para a Madeira, «vento forte a muito forte, diminuindo de intensidade amanhã, períodos de chuva ou aguaceiros, condições favoráveis à ocorrência de trovoadas e pequena descida da temperatura máxima», (24 graus no Funchal). Ainda, segundo informações do mesmo Instituto, entre as 09:00 de Segunda-Feira (dia 19 de Novembro) e a mesma hora de Terça-Feira (dia 20 de Novembro) a chuva, atingiu os 44,5 milímetros por metro quadrado, diminui para 18,7 no dia 21 e situou-se nos 1,1 a 22 de Novembro;
Neste mesmo dia (22 de Novembro), uma derrocada ocorreu na zona do Parque Empresarial da Zona Oeste (PEZO), junto à Ribeira Socorridos, provocando dois mortos e um ferido ligeiro, e soterrando várias viaturas num parque de estacionamento de uma empresa de construção civil;
«Aguaceiros mais previsíveis na costa norte da Madeira, vento moderado a forte de 45 a 65 quilómetros/hora com rajadas que podem atingir os 90 quilómetros nas zonas altas», foram as previsões do Instituto de Meteorologia, para os três dias seguintes ao dia 22 de Novembro no Arquipélago da Madeira.
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Derrocada na zona do Parque Empresarial da Zona Oeste (PEZO)
(Junto à Ribeira Socorridos - foto do autor)

2008 - 07, 08 e 09 de Abril. Pela primeira vez (?), no mês de Abril um grande temporal assolou o Arquipélago da Madeira. Pelo menos não encontramos relatos antigos relativamente a este mês! O temporal começou às 21H00 do dia 07 de Abril, durante a noite, madrugada e manhã do dia 08 de Abril, a Ilha da Madeira foi fustigada por ventos fortes, acima dos 120 km/hora e chuvas torrenciais. O temporal prolongou-se até 09 de Abril.
A precipitação caída criou verdadeiras condições para conceber uma grande «aluvião», idêntica às registadas no passado histórico da ilha da Madeira. Felizmente que não aconteceu! O temporal vindo de sudoeste abateu-se essencialmente sobre a costa sul da maior ilha deste arquipélago do Atlântico Norte. A precipitação, caiu em abundância nos concelhos da Ribeira Brava, São Vicente, Câmara de Lobos, Funchal e Santa Cruz. A ondulação forte do mar na maré alta (que teve início pelas 14H30, atingiu o «pico» pelas 16H00 e terminou às 22H00 no dia 08 de Abril), provocou enormes prejuízos no litoral, particularmente em infraestruturas portuárias e complexos balneários, entre os concelhos da Calheta e do Funchal.
No Funchal, segundo o Instituto de Meteorologia, a precipitação caída entre as 09H00 do dia 08 e as 09H00 do dia 09 de Abril quase triplicou o valor normal do mês. Em 24 horas foram registados 111 milímetros de precipitação (111 litros de água por metro quadrado), na estação meteorológica do Funchal. O mesmo Instituto referiu que, «este valor agora registado foi quase três vezes superior ao normal do mês de Abril, que é de 38,9 milímetros, atendendo ao período de referência, entre 1961/1990». Ainda mais aditou que, «considerando a série de totais diários desde 1949, o valor registado constitui um novo extremo para este mês e para esta estação» e que «o anterior máximo» (07 de Abril de 2003) «era de 54 milímetros».
Na cidade capital, o temporal provocou desalojamentos de quatro famílias (uma de Santo António, uma de Santa Maria Maior e duas da Torrinha), num total de 12 pessoas. A zona mais crítica foi a do Ribeiro da Nora, onde uma obstrução do leito do citado ribeiro, com grandes pedras, a água galgou as margens para o arruamento, inundando várias habitações. Um indivíduo acidentado nesta zona foi prontamente evacuado para o Hospital. Por todo o concelho, dado o volume de precipitação, ocorreram inundações, quedas de árvores e pequenas derrocadas que provocaram prejuízos e condicionaram durante algumas horas a vida normal dos funchalenses. Houve encerramento do Caminho dos Pretos, devido a queda de árvores, e condicionamento de outras vias, como no Curral dos Romeiros (Monte) e Curral Velho (Santo António). As inundações nas partes baixas da cidade ocorreram com maior gravidade na Rua do Ribeirinho (inundações num Parque de Estacionamento e estabelecimentos comerciais), na Rua da Carreira (idem), e nos dois túneis da Cota 40. Ruas cortadas por derrocadas, estabelecimentos comerciais e escolares encerrados e inundados e ondas de destruição foi o cenário que marcou o dia de 08 de Abril, que em muito fez lembrar o temporal de 29 de Outubro de 1993, onde o índice de precipitação verificada foi inferior. Os complexos balneares dos hotéis junto ao litoral, da Praia Formosa, Ponta Gorda, Lido e Barreirinha foram fustigados por ondas alterosas na maré alta.
Recorda-se que no maior «pico de cheia» do caudal das ribeiras (entre as 09H00 e as 10H00 do dia 08 de Abril onde a precipitação atingiu 41 milímetros ou 41 litros de água por metro quadrado), o mar encontrava-se na maré baixa, o que, facilitou em muito o escoamento junto às desembocaduras ou fozes das mesmas. Por outro lado, tudo indica que os trabalhos de correcção torrencial e desassoreamento das ribeiras do Funchal surtiram com algum sucesso por não ter havido «fenómenos de barragem» e grande transporte detrítico.
Por toda a ilha da Madeira sucederam-se várias derrocadas e as «habituais vias» onde estes fenómenos acontecem com maior frequência, foram encerradas a todo o trânsito, por razões de segurança, pelo Serviço Regional de Protecção Civil (SRPC).
Em de São Vicente, uma derrocada provocou graves danos em duas viaturas estacionadas, no sítio da Terra do Galo. Um pouco por todo este concelho houve estradas encerradas devido à ocorrência de derrocadas e à queda de pedras e de árvores, designadamente entre o Rosário e o Chão dos Louros. O mesmo aconteceu na estrada regional que liga São Vicente à Ponta Delgada, na estrada entre Ponta Delgada e Boaventura e entre São Vicente e o Seixal. Algumas escolas deste concelho nortenho estiveram encerradas devido ao mau tempo.
A oeste da Ilha, na Calheta, Ponta do Sol e Ribeira Brava, a ondulação forte do mar, submergia os enrocamentos de protecção minimizando os impactos destruidores em terra. O cais do Calhau da Lapa ficou destruído.
A visibilidade reduzida e os ventos fortes, condicionou a operacionalidade do Aeroporto Internacional da Madeira e 15 voos foram afectados. Alguns derivaram para os aeroportos do Porto Santo, Faro (Algarve) e ilhas Canárias.
Nas restantes ilhas do Arquipélago, salvo as condições do mar que condicionou as viagens para o Porto Santo, nenhuma ocorrência foi registada.
Desde o dia 02 de Abril, os serviços de meteorologia alertavam para uma depressão sobre o Arquipélago, porém a população da Madeira foi apanhada desprevenida.

Agitação marítima - Praia Formosa - Abril de 2008
(Foto de autor desconhecido)

2008 - 21 de Julho. O Instituto de Meteorologia informou neste dia que, «pelas 03:39 (hora local) foi registado nas estações da Rede Sísmica no Continente e Madeira, um sismo de magnitude 3.1 (Richter) e cujo epicentro se localizou a cerca de 16 km a este-nordeste da Deserta Grande».
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2008 - 15 de Setembro. Igualmente, o Instituto de Meteorologia informou neste dia que, «pelas 13:04 (hora local) foi registado nas estações da Rede Sísmica do Continente, um sismo de magnitude 2.6 (Richter) e cujo epicentro se localizou a cerca de 12 km a sul de Santa Cruz».

2008: - 17 de Outubro. Pelas 16 horas, ocorreu uma derrocada na escarpa junto à queda de água, conhecida por “Véu da Noiva”, na Freguesia do Seixal, concelho do Porto do Moniz, levando à interdição da zona envolvente incluindo o litoral, por parte das autoridades competentes. Este movimento de vertente, originou uma pequena fajã junto ao Mar, derrubou parte do troço da antiga Estrada Regional 101 e do Túnel das Sete Janelas (túnel que passa sob a mesma queda de água).
Este fenómeno geológico, também designado localmente por quebrada, é muito comum na Madeira, e fica aqui registado, pelo facto de ser a queda de água mais admirada e fotografada por visitantes e residentes, considerada uma atracção turística da Madeira;
- 27 de Novembro. Pelas 10h00, uma nova derrocada ocorreu no mesmo lugar supracitado. A queda de pedras e de terra destruiu mais uma parte da Estrada Regional 101 e do Túnel das Sete Janelas, que já havia sido danificado na anterior derrocada, ocorrida em 17 de Outubro. Apesar desta nova derrocada, a queda de água não foi afectada (?), mas, a encosta sobranceira continua a mostrar sinais de instabilidade.

Véu da Noiva - Seixal
(Foto do autor)

2008 - 30 de Dezembro. O Instituto de Meteorologia informou neste dia que, «pelas 20:01 (hora local) foi registado nas estações da Rede Sísmica do Continente, um sismo de magnitude 2.9 (Richter) e cujo epicentro se localizou a cerca de 8km a Sudeste de Machico». Este sismo, de acordo com a informação disponível, «não causou danos pessoais ou materiais e foi sentido com intensidade máxima III (escala de Mercalli modificada) na região de Machico e com menor intensidade no Funchal.»
A ocorrência passou despercebida à maioria da população de Machico. Por outro lado, o Serviço Regional de Protecção Civil recebeu vários telefonemas de cidadãos que sentiram o abalo. Os Bombeiros Municipais de Machico, não foram solicitados para qualquer serviço.

2009 - 21 de Julho. O Instituto de Meteorologia informou que neste dia «pelas 20:55 (hora local) foi registado nas estações da Rede Sísmica do Continente, um sismo de magnitude 2.8 (Richter) e cujo epicentro se localizou a cerca de 4 km a Nordeste de S. Vicente».

2009 - 23 de Outubro. O Instituto de Meteorologia informou que neste dia «pelas 20:56 (hora local) foi registado nas estações da Rede Sísmica do Continente, um sismo de magnitude 2.8 (Richter) e cujo epicentro se localizou a cerca de 18 km a Norte da Deserta Grande. Este sismo, de acordo com a informação disponível até ao momento, não causou danos pessoais ou materiais e foi sentido com intensidade máxima II/III (escala de Mercalli modificada) na região de Machico.»

2009 - 03 de Dezembro. O Instituto de Meteorologia informou que neste dia «pelas 12:05 (hora local) foi registado nas estações da Rede Sísmica do Continente, um sismo de magnitude 3.7 (Richter) e cujo epicentro se localizou a cerca de 16 km a Norte da Deserta Grande. Este sismo, de acordo com a informação disponível até ao momento, não causou danos pessoais ou materiais e foi sentido no Arquipélago da Madeira com intensidade máxima III (escala de Mercalli modificada) nas localidades de Machico, Santa Cruz, Caniço, Funchal e Porto Santo.»

2009: - 18 de Dezembro. O Arquipélago da Madeira foi colocado sob “alerta laranja”, pelo Instituto de Meteorologia.
A agitação marítima na costa sul da Madeira provocou estragos nos complexos balneares e em algumas unidades hoteleiras na orla costeira e em terrenos agrícolas, na Ponta do Sol e na Ribeira Brava.
No Funchal, o complexo balnear da Barreirinha, foi o mais afectado com estragos consideráveis no solário, já que a forte ondulação acabou por arrancar as placas de cimento que circundam a piscina.
A forte precipitação em terra, e no Funchal, fizeram encerrar a Estrada da Corujeira, na freguesia do Monte, devido a uma derrocada ou quebrada. A rede de esgotos no Caminho dos Saltos, igualmente foi afectada pelas fortes chuvadas, segundo a edilidade funchalense.
Em outros sítios da cidade capital, o mau tempo, derrubou árvores, e as fortes chuvas aliadas a entulhos e outros detritos entupiram linhas de água que transbordaram provocando algumas inundações.

Ribeira da Vargem - Rosário - São Vicente
(Foto do autor)

22 e 23 de Dezembro. O mau tempo vindo de sudoeste, acompanhado por vento forte e trovoada, possuidor de elevada precipitação, que se fez sentir na Madeira, nestes dias, aumentou os caudais dos ribeiros e das ribeiras, espalhando o caos e estragos um pouco toda a Ilha. As ribeiras de São Vicente e da Madalena do Mar saíram dos seus leitos e semearam o pânico e caos nas localidades afectadas. O temporal condicionou a circulação automóvel em muitas estradas regionais e municipais. Em alguns casos, houve mesmo a necessidade de interditar a circulação rodoviária entre localidades, por questões de segurança. Mas, o caso mais grave aconteceu no concelho de São Vicente.
Em São Vicente, entre o final do dia 22 para o dia 23 de Dezembro, as águas das ribeiras locais galgaram as margens, arrastaram automóveis, e inundaram a vila com o mesmo nome. As zonas altas de São Vicente, foram as mais afectadas, e a maior parte dos seus habitantes, o pânico foi o denominador comum em muitas famílias, particularmente nos sítios do Rosário, da Ribeira Grande e das Ginjas.
No sítio do Rosário, as águas da Ribeira da Vargem, galgaram as margens pondo em perigo de desabamento de habitações, tendo os seus habitantes que as abandonar, por medidas de precaução, com ajuda dos bombeiros. Foram alojadas provisoriamente em casa de vizinhos e familiares. Igualmente, um armazém na mesma zona foi afectado e parte da estrada local foi derrubada pela enxurrada.
O sítio da Ribeira Grande, ficou isolado e devastado. Sem telefones e sem luz eléctrica, nem as duas estradas de acesso, ligadas por uma ponte, ficaram transitáveis. As habitações onde vivem cerca de 50 pessoas correram sérios riscos de serem devastadas pela força das águas e entulho. Nesta localidade os estragos foram descomunais. A enxurrada invadiu uma garagem, achatando uma viatura contra o tecto, assim como a lama, invadiu as instalações da Associação da ADENORMA (centro comunitário e de convívio de idosos). Muitas parcelas de terrenos agrícolas desapareceram levados pelas águas da ribeira.

Sítio da Ribeira Grande - São Vicente
(Foto do autor)

No sítio das Ginjas, houve perdas de terrenos de cultivo de vinha e de animais.
Na vila de São Vicente, o amanhecer do dia 23 de Dezembro, revelou alguns prejuízos. Um Centro Comercial e lojas comerciais ficaram inundadas, assim como, a Esquadra da PSP. Junto à foz da Ribeira de São Vicente, os muros de suporte da Capela de São Vicente (ou do Calhau, construída pelo «povo no ano de 1692», segundo o Elucidário), foram empurrados para o mar. Mas, o solitário dique basáltico/capela testemunhou mais uma enxurrada/aluvião como em tantas outras do passado histórico da «madrasta natureza» de São Vicente.
A via expresso entre a rotunda do Loural e Quartel dos Bombeiros encerrou. A enxurrada destruiu os muros de suporte e parte da mesma via e com ela a canalização de abastecimento de água potável. Neste local, na noite do dia 22, «uma automobilista que decidiu sair do carro foi apanhada pela enxurrada que a arrastou e valeu-lhe, a rápida intervenção dos Bombeiros Voluntários de São Vicente e do Porto do Moniz, que a conseguiram resgatar com vida e sem ferimentos, segundo os jornais regionais. Outros carros foram igualmente desviados pelo arrastamento das águas e lamas.
Ainda neste mesmo concelho e na freguesia da Boaventura, no sítio do Lombo Urzal, a cedência de um terreno em conjunto com um reservatório de água, aumentou o caudal da Ribeira do Porco e a enxurrada atingiu casas e terrenos agrícolas e a estrada local. No sítio da Falca de Baixo, as águas da ribeira inundaram um estaleiro localizado “erradamente” na sua margem e causaram estragos em camiões e máquinas.
As chuvas torrenciais, que se precipitaram sobre as zonas altas de São Vicente deram origem a diversos movimentos de vertente. Alguns destes, tiveram início no Pico do Cedro, atingindo o Ribeiro da Ladeira e a Ribeira Abica Cachorros, na Cova do Lanço, na Encosta do Rosto Branco e na Junça, mesmo junto à Ribeira Grande. Para além do imenso caudal de água que a ribeira reúne neste local, duas derrocadas ou quebradas, (uma no Pico das Cabras e outra do Lombo do Peixe), transformaram-se num fluxo aquoso detrítico em movimento, de dimensões consideráveis, sobre o sítio da Ribeira Grande. A enxurrada, que mais a baixo se juntou à Ribeira da Vargem, vinda do sítio do Rosário, percorreu com toda a sua força o vale, onde se encaixa a Ribeira de São Vicente, até à Vila e foz da citada ribeira, fazendo recordar as aluviões mais recentes, de 06 de Março de 1929 e 2001, no espaço geográfico vicentino.

Ribeira de São Vicente
(Foto do autor)

No dia 24 de Dezembro, “véspera de Festa”, já a Vila de São Vicente encontrava-se com os acessos rodoviários desobstruídos e limpos. A praia, que era de calhau rolado, passou a ser de areia fina.
Segundo o Jornal da Madeira de 17/01/2010, «a chuva caiu sobretudo no maciço central, afectando o vale de São Vicente, onde, por exemplo, no dia 22 de Dezembro (o mais problemático), os postos pluviométricos registaram 90 milímetros por metro quadrado de chuva» (…), «e ainda naquele concelho e segundo os mesmos postos, no mês de Dezembro choveu 1.400 milímetros por metro quadrado».
Os temporais 22 e 23 de Dezembro, em São Vicente não tiveram apenas consequências destrutivas. Ainda segundo o mesmo Jornal da Madeira de 18/01/2010, «no corgo do Barrinho, uma das pedreiras do Núcleo Museológico da Rota da Cal, ficaram a descoberto novos vestígios geológicos relacionados com a formação geológica da Madeira».
Por toda a ilha da Madeira, entre o dia 22 e 23 de Dezembro, houve registos de inundações, derrocadas, quedas de árvores e de postes de iluminação, atingindo tanto os restantes concelhos do norte, como os do sul, este e oeste.
Ainda a norte da Ilha e no concelho de Santana, as suas quatro freguesias, São Roque do Faial, Faial, Ilha e São Jorge, ficaram sem abastecimento de água potável em virtude de as redes de abastecimento terem sido destruídas por derrocadas ou quebradas.
Segundo os meios de comunicação social, Santana que foi dos concelhos da Região que maior pluviosidade registou «neste período». Um facto, que fez aumentar o caudal das ribeiras e provocaram alguns prejuízos. Um dos mais significativos aconteceu na frente mar do Faial, junto ao complexo balnear. O desgaste provocado pelo forte caudal da Ribeira do Faial, confluente a Ribeira da Metade da mesma freguesia, fez ruir cerca de 25 metros do muro de suporte, o que fez desabar também uma parte significativa do pavimento da estrada de acesso ao complexo. Na freguesia da Ilha, o caminho agrícola da Lombadinha, com início junto ao polidesportivo local, igualmente foi destruído pela ribeira.
A este e no concelho de Machico, registaram-se pequenas inundações em residências na Fajã dos Rolos e no sítio da Graça. Muitas estradas deste concelho ficaram cheias de pedras e outras de terra, devido a pequenos deslizamentos.
No concelho de Santa Cruz, e nas freguesias do Caniço, Camacha e Gaula, os bombeiros e outros meios, foram mobilizados para remover árvores derrubadas pelo vento, que igualmente, acabou por arrancar algumas telhas em muitos prédios de habitação e postes de iluminação pública.
No Aeroporto Internacional da Madeira, o vento foi o principal responsável pelo cancelamento de cincos voos que tinham como destino o Aeroporto Internacional da Madeira, divergindo para outros aeroportos, designadamente Lisboa e Porto Santo.
A oeste e no concelho da Calheta, ocorreram também algumas derrocadas e deslizamentos de terras que impediram a circulação viária em alguns locais, como foi o caso do acesso às freguesias do Jardim do Mar e Paul do Mar. A marginal da Calheta e a praia, em consequência da grande “levadia”, foram invadidas por calhaus empurrados pelo mar revolto, que igualmente, provocou estragos nos enrocamentos de protecção.

Ribeira da Madalena do Mar
(Foto do autor)

Na Madalena do Mar, o nível freático da ribeira aumentou com a forte precipitação e por consequência, transportou e depositou o material aluvionar na sua foz, causando estragos na promenade.
No concelho da Ponta do Sol, o enrocamento de protecção da vila sofreu alguns estragos pela forte agitação marítima.
A sul, e no concelho de Câmara de Lobos, mais precisamente na freguesia do Estreito, uma árvore atingiu dois automóveis que estavam estacionados, bloqueando a estrada. No mesmo concelho, mas no sítio da Nogueira, na zona do Cabo Girão, uma árvore caiu sobre um autocarro, sem provocar feridos. No Curral das Freiras, no sítio do Pico do Furão, a estrada ficou temporariamente interdita ao trânsito automóvel. A população do sítio da Fajã dos Cardos na mesma freguesia passou a noite de terça (dia 22 Dezembro) para quarta-feira (dia 23 Dezembro) em sobressalto. A forte intensidade da chuva provocou o aumento do caudal da ribeira local e fez renascer algumas linhas de água, que provocaram vários prejuízos em habitações.
O Funchal, sofreu apenas as consequências das fortes rajadas de vento, houve quedas de árvores na zona hoteleira, Avenida Zarco, Monte, Rotunda do Infante e Bairro da Nazaré, onde uma viatura ficou danificada. Também a iluminação pública sofreu as consequências das fortes rajadas, com um táxi a ser atingido por um poste junto à Casa da Luz e a decoração natalícia, montada junto ao cais, ruiu parcialmente coma força do vento. No sítio da Estrela, na freguesia de Santo António, na estrada para o Curral das Freiras, uma derrocada atingiu um automóvel, mas não causou vítimas porque os ocupantes saíram a tempo. É de referir que durante a noite de terça para quarta-feira, a estrada que liga o Funchal e o Curral das Freiras teve de ser mesmo encerrada, devido queda de árvores.
Felizmente, não houve danos humanos a lamentar, no percursso de mais um temporal que assolou a Madeira.
As previsões do Instituto de Meteorologia para os dias seguintes à intempérie (22 e 23 de Dezembro) apontavam novamente para o Arquipélago da Madeira, «para vento forte com rajadas que poderiam atingir os 130 quilómetros/hora nas zonas altas, aguaceiros e possibilidade de trovoadas».

Faial - Penha d'Águia
(Foto do autor)

2010 - 01 e 02 de Fevereiro. A Madeira esteve, durante parte do dia de 01 para o dia 02 de Fevereiro sobre forte precipitação, acompanhada de rajadas de vento que deixaram marcas de destruição, um pouco por todo da Ilha e causaram dissemelhantes prejuízos em várias localidades. Estas condições atmosféricas foram de tal forma adversas que o Serviço Regional de Protecção Civil e Bombeiros, emitiu um “alerta vermelho”, justamente, para a «ocorrência de forte precipitação e vento que, nas zonas montanhosas», que poderia «atingir os 70 quilómetros por hora». A Ilha, ainda não refeita do último temporal de 22 e 23 de Dezembro de 2009, viu os seus concelhos de Machico, de Santana, de Santa Cruz e do Funchal mais uma vez afectados.
O temporal provocou inúmeras derrocadas que encerraram e condicionaram estradas, tendo sido alguns carros arrastados e danificados pelas enxurradas. Muitas habitações sofreram inundações e várias famílias foram realojadas devido ao perigo de deslizamentos de terras e de queda de muros, entre outras situações.
A maior intensidade de precipitação, assolou a zona leste e nordeste da Madeira, e os concelhos mais atingidos foram os de Machico, Santana e Santa Cruz.
No concelho de Machico e no Sítio dos Maroços, o entulho resultante de derrocadas ou quebradas, foi arrastado pela força das águas, afectou a circulação automóvel na estrada local, transformando-a numa autêntica “ribeira”, ficando completamente intransitável. Um pouco mais abaixo dos anteriores citados sítios e num lugar que chamam de “Velho Moinho”, troncos, pedras e lama, igualmente, foram arrastados pela força das águas, invadindo a estrada local e causando danos em viaturas. Nestes mesmos sítios, vários deslizamentos de terras danificaram terrenos agrícolas.
No sítio dos Landeiros, troncos e pedras arrastados pelo Ribeiro da Pia, fizeram uma barragem onde a enxurrada atingiu a estrada local com grande quantidade de entulho, acabou por arrastar uma viatura cerca de 25 metros, que ali se encontrava estacionada.
Na freguesia do Santo da Serra, várias casas foram inundadas e algumas derrocadas danificaram terrenos agrícolas.

Sítio do Massapez - Porto da Cruz
(Foto da Associação dos Amigos do Parque Ecológico do Funchal)

Ainda no mesmo concelho de Machico e na freguesia do Porto da Cruz, os efeitos do temporal foram mais graves. Houve muitos deslizamentos de terras e estradas invadidas pelas enxurradas transportadas pelo caudal dos ribeiros e das ribeiras, que saíram dos seus leitos naturais. Nesta freguesia, e no sítio do Massapez, uma derrocada ou quebrada de algumas dimensões, atingiu parte de uma habitação. Não houve danos humanos a lamentar e os moradores foram realojados em casa de familiares. Igualmente, no sítio dos Casais Próximos (Paredes), uma outra casa também foi atingida pela água e lama. Nestes sítios, houve devastações de terrenos de cultivo, de vinha, bananeiras e cana-de-açúcar.
Na parte baixa da vila do Porto da Cruz, e também no sítio dos Casais Próximos (Banda da Lagoa) a Ribeira do Massapez transbordou, e os arruamentos adjacentes foram invadidas por água, lama e troncos. Várias residências foram inundadas e viaturas arrastadas pela enxurrada.
No concelho de Santana, derrocadas, inundações, quedas de árvores e postes de energia eléctrica, era igualmente a realidade que se viveu neste concelho. Mesmo na cidade de Santana, o troço entre a Câmara Municipal e o Parque Temático foi encerrado, em virtude de a uma derrocada que ocupou a estrada e invadiu um armazém. Igualmente, outras freguesias de Santana foram afectadas.
Na freguesia da Ilha, o contacto com o exterior à mesma, era feito pela da Estrada da Silveira (estrada que liga esta freguesia à cidade de Santana, pela Achada do Marques e pela Silveira).
Na freguesia de São Roque do Faial, foram as condicionadas várias estradas e a escola local foi inundada, chegando a ter «cerca de meio metro de altura de água», segundo os jornais regionais.
Na freguesia do Faial, as localidades mais afectadas, foram os sítios do Lombo do Galego e da Fazenda, cujas estradas foram devastadas por várias derrocadas e várias casas foram inundadas e viaturas foram arrastadas pela enxurrada.
De toda a zona nordeste da Madeira, as localidades supracitadas, foram as mais atingidas pela forte precipitação. É de referir que, as citadas freguesias do concelho de Santana (Faial e São Roque do Faial) têm os seus limites fronteiriços, com a vizinha freguesia do Porto da Cruz, do concelho de Machico. Os fenómenos atmosféricos que se deram nesta zona, aliados à geomorfologia local, criaram condições para ocorrer mais uma aluvião, entre as muitas do passado histórico destas freguesias.

Sítio da Fazenda - Faial
(Foto da Associação dos Amigos do Parque Ecológico do Funchal)

No concelho de Santa Cruz, uma das situações mais complicadas terá sido na zona do Vale Paraíso, quando o Ribeiro do Fernando, galgou o caminho, e arrastou consigo, lama, vegetação e inúmeras pedras, que levaram ao encerramento da estrada regional entre o Funchal e a Camacha. Uma empresa localizada, no sítio do mesmo nome, foi inundada e sofreu elevados prejuízos nas suas instalações e em uma viatura.
Ainda em Santa Cruz, e no seu litoral, devido à forte ondulação, o mar atirou para a promenade o calhau da praia e outros detritos transportados pela ribeiras e ribeiros, e, provocou estragos no complexo balnear das Palmeiras, bem como no Hotel, situado no centro da cidade, onde o trânsito esteve condicionado.
Devido ao mau tempo, algumas escolas encerram em Machico, Santana e Santa Cruz.
No Aeroporto da Madeira, foram cancelados seis voos, devido à falta de visibilidade.
A freguesia do Curral das Freiras esteve isolada por várias horas devido a uma série de derrocadas que transpuseram as estradas e inundarem várias habitações.
Na cidade capital, o Funchal, igualmente, houve pessoas desalojadas, casas inundadas, árvores caídas e ribeiros a transbordar, devido à forte precipitação. As derrocadas ocorreram no concelho, um pouco por todo o lado, mas o incidente mais grave, ocorreu no sítio do Vasco Gil com a queda de árvores e arrastamento de terras. Neste mesmo sítio, uma vereda local (Vereda das Escadinhas), ficou intransitável e as residências ficaram isoladas em consequência de uma enxurrada vinda da estrada localizada a montante. Uma delas que estava desabitada foi mesmo soterrada. Os habitantes foram realojados em casa de familiares e pelos serviços da Câmara Municipal do Funchal. No sítio do Lombo dos Aguiares, um ribeiro entupiu e ameaçou habitações. Na Travessa do Lombo da Quinta, foi realojada mais uma família com seis pessoas por causa de uma parede de uma residência que ameaçava ruir. No Curral dos Romeiros, acima do Largo do Miranda, houve quedas de árvores.
Na baixa da cidade, ocorreram diversas inundações, como nos túneis da Cota 40, onde a água lamacenta atingiu cerca de um metro, deixando algumas viaturas em dificuldades e até mesmo imobilizadas. Igualmente, várias residências, lojas e armazéns, sofreram inundações como por exemplo, na Travessa da Ribeira de João Gomes, na Rua da Rochinha, no Caminho do Palheiro, na Travessa do Lazareto, na Rua Pedro José de Ornelas, na Rua de São João Bosco, numa loja nos Viveiros, um armazém na Rua Dr. Pestana Júnior e uma garagem no Praça do Carmo.
Em todo o concelho do Funchal houve situações de deslizamentos de terras e queda de muros, entre os quais, na Estrada Nova do Aeroporto, na Travessa do Lombo da Quinta, no Caminho dos Pretos, no Caminho das Tílias (onde foram evacuados dois moradores por precaução e transportados para o Centro Comunitário do Funchal), no Caminho dos Lombos,  na Estrada da Corujeira e Lajinhas.
A agitação marítima no Funchal provocou elevados estragos nos Complexos Balneares da Barreirinha, Praia de São Tiago, Lido e Ponta Gorda.
Segundo o Jornal da Madeira de 04 de Fevereiro de 2010 a precipitação caída «em 24 horas» no Funchal, foi de «112 milímetros de água por metro quadrado». As ribeiras principais do Funchal trouxeram muita água devido à forte precipitação. No Funchal assim como em toda ilha Madeira, felizmente, não houve danos humanos a lamentar.
Na ilha de Porto Santo, a chuva copiosa e os ventos fortes, fizeram-se similarmente sentir, não havendo registos de quaisquer estragos naquela Ilha.
A agitação marítima, foi uma constante nos dias da intempérie e fustigou o litoral madeirense.
O temporal vindo de sudoeste que afectou a Madeira nestes dias, criou verdadeiras condições para a ilha sofrer mais uma grande catástrofe. Assim não aconteceu, mas no arquipélago vizinho e na ilha de Tenerife a precipitação foi superior, e esta, com um historial destes fenómenos naturais, idênticos aos que acontecem na Madeira, infelizmente não se isentou.

Serra de Água - Ribeira Brava
(Após a aluvião de 20 de Fevereiro de 2010 - foto do autor)

2010 - 20 de Fevereiro. No dia 19 de Fevereiro, o Jornal da Madeira dava conta das condições meteorológicas do dia anterior. Assim, podíamos ler no mesmo jornal que, «entre as 9 horas do dia 17 e as 17 horas do dia» de 18 de Fevereiro (quinta-feira), «o Observatório Meteorológico do Funchal registou uma rajada da ordem dos 159,1 km/h, em São Jorge. Também no Caniçal, registo para uma outra de 155,1 Km/h, sendo que no Areeiro os aparelhos marcaram 139,6 Km/h. No Porto Santo, o vento chegou aos 100,8 km/h.
No que toca à chuva, as estações do Areeiro e Calheta/Ponta do Pargo registaram a quantidade máxima de precipitação acumulada em 10 minutos. No primeiro, às 8:50 horas de ontem os aparelhos marcavam 6,2 mm, sendo que no segundo, às 20:30 horas de quarta, eram contabilizados 6,1 mm.
Quanto à precipitação acumulada, a estação do Areeiro atingiu os 128,2 mm, enquanto que a da Calheta/Ponta do Pargo ficou-se pelos 73,9 mm. O Porto Santo registou 65,8 mm.
Uma referência ainda para as temperaturas, sendo que a mínima foi de 1,5 graus Celsius no Areeiro (às 9:40) e a máxima de 18,7 no Funchal (15:30 horas).»
«Para os próximos dias» (…), «não são esperadas grandes melhorias.» (…). «Depois, no sábado, voltam os aguaceiros, com o vento a soprar forte.»
Ainda segundo o mesmo jornal, as «previsões da Meteorologia» apontavam para «chuva e vento por vezes muito forte a partir da tarde de hoje» (19 de Fevereiro) «e ainda trovoada, sobretudo na encosta a sul. Cerca de 70 homens preparados para “acudir” o Funchal (…).» E, continuando a ler o mesmo jornal, apercebíamo-nos que todos os dispositivos e meios de protecção civil municipais do arquipélago estavam de prevenção, face às condições atmosféricas previstas para o dia 20 de Fevereiro (sábado).

Sítios, do Trapiche, da Barreira, do Curral Velho, do Poço do Morgado e Ribeiro do Trapiche - Santo António - Funchal
(A elevada precipitação e o subsequente aumento de águas pluviais, vindas do Caminho do Curral Velho, provocaram a derrocada no centro da foto. Esta atingiu duas casas e originou 04 mortos. Em frente das mesmas, dois deslizamentos que se transformaram em enxurrada, junto ao Ribeiro do Trapiche, causaram o desaparecimento de 03 pessoas. Mais a montante - à esquerda da foto - uma outra derrocada fez um morto. Foto do autor)

Pela noite dentro de 19 de Fevereiro (sexta-feira), chovia copiosamente e o caudal dos ribeiros e ribeiras remoçavam num ruído permanente não deixando dormir quem desconfiava do que podia acontecer com os efeitos da precipitação contínua nas montanhas da ilha, para além de ainda estarem presentes os últimos temporais de 22 Dezembro de 2009 e 02 de Fevereiro de 2010. Toda à noite choveu!
Na manhã do dia 20 de Fevereiro (Sábado), pelas 08H00, a chuva continuava e parecia que nunca mais parava. Pelas 09H00, ainda chovia mais. E, ainda pelas 10H00 a água aparecia por todo lado e não havia modo de conter o caudal pluvial. Tudo, estava mergulhado em água castanha, que de clara, logo se tornou mais escura, com o odor a terra vegetal, fazendo-nos recordar outros fenómenos idênticos no passado recente.
De repente, não é que o “turbilhão”, já descia as encostas e atingia os vales e aumentava cada vez mais, arrastando tudo o que encontrava pela frente. Terrenos, casas, carros e gritos de gente aflita.
As águas lamacentas galgaram pontes e as estradas tornaram-se ribeiras, instalando o pânico nas pessoas que conduziam carros sem controlo, empurrados muitas vezes no sentido inverso à marcha em que prosseguiam.
Os telemóveis por vezes não funcionavam, e mesmo com alguma insistência, os avisos não chegavam aos destinatários, para o perigo que podiam correr nas partes mais baixas.
O ruído da enxurrada apagava tudo à sua volta, e por incrível possa parecer, só os gritos humanos o ultrapassavam. Por fim, o silêncio humano fazia temer o pior. E o pior aconteceu mesmo à nossa frente, sem podermos fazer nada.
E, assim talvez aconteceu a pior catástrofe dos últimos 200 anos na Madeira, que afectou em particular os concelhos: do Funchal (a baixa da cidade e as zonas altas das freguesias, do Monte e de Santo António), da Ribeira Brava (nas freguesias, da Tabua e da Serra de Água), de Câmara de Lobos (nas freguesias, do Curral das Freiras e do Jardim da Serra), de Santa Cruz (nas freguesias, da Camacha e do Caniço), e até mesmo, os concelhos da Ponta do Sol e da Calheta (nas freguesias, da Madalena do Mar, do Arco da Calheta, do Jardim do Mar e do Paul do Mar).
Toda a vertente sul da Madeira, foi afectada pela intempérie de 20 de Fevereiro de 2010, e, não vamos particularizar acontecimentos ou factos, pois ao enunciá-los todos, não nos caberia neste espaço.

Sítios do Trapiche e da Barreira - Santo António – Funchal
(A elevada precipitação e o subsequente aumento de águas pluviais, vindas do Caminho da Barreira, provocaram os deslizamentos que se podem ver na foto. As enxurradas, seguiram em direcção ao Ribeiro do Trapiche - sítio do Poço do Morgado - embateram numa habitação, originando o desaparecimento de uma mãe, filha e uma amiga, já citadas na legenda da foto anterior. Foto do autor)

O balanço à aluvião que atingiu a Madeira, a 20 de Fevereiro e segundo dados oficiais, que podem ser lidos no Jornal da Madeira, de 01 de Maio de 2010, o «balanço oficial» da intempérie de 20 de Fevereiro de 2010, que «morreram 43 pessoas, oito permanecem desaparecidas, 120 ficaram feridas e 800 habitações sofreram danos, 400 das quais com perda total ou a precisar de uma intervenção profunda, num prejuízo avaliado em 36 milhões de euros». «A Comissão Paritária Mista, criada mais tarde por elementos dos governos Regional e da República, definiu o valor dos prejuízos em 1.080 milhões de euros, mais 300 milhões do que a estimativa feita uma semana depois do temporal pelas autoridades regionais. Ainda assim, o equivalente à construção de dois aeroportos da Madeira.»
«Além das perdas de vidas e casas, vários serviços ficaram seriamente afectados pela intempérie, nomeadamente os transportes e as comunicações. As dificuldades em realizar chamadas telefónicas, especialmente no dia da catástrofe, foram particularmente dramáticas para quem não sabia onde estavam os seus familiares.»
«No dia 20, os problemas foram em quase todas as áreas. O abastecimento de água ficou afectado nas zonas altas de Santo António, no Curral das Freiras, no Monte, na Ponta do Sol, na Ribeira Brava e em vários outros pontos espalhados pela ilha, bem como o fornecimento de electricidade foi interrompido em zonas do Curral das Freiras, da Ribeira Brava e da baixa do Funchal.»
«O sistema de saneamento básico também ficou seriamente atingido. Só no Funchal os prejuízos no sistema de esgotos foram de 12,5 milhões de euros, de acordo com a Câmara Municipal do Funchal.»
«Os valores totais globais nestes sectores são, contudo, bem superiores. Segundo a Comissão Paritária Mista, as redes de abastecimento de água, do saneamento e electricidade, edifícios e equipamentos públicos e protecção civil/socorro tiveram danos na ordem dos 71 milhões de euros.»
«Porém, a área mais afectada pelo temporal de 20 de Fevereiro foi, obviamente, a hidrologia (ribeiras, pontes, muralhas, canalizações, reposição de pontes e acessos, entre outros), com custos de 488 milhões de euros.»
«As estradas da ilha foram também atingidas, sendo necessários cerca de 236 milhões de euros para recuperá-las, enquanto que os portos e litoral vão precisar de 127 milhões de euros.»
«O comércio foi outro dos sectores gravemente afectados. A água, pedras e lama trazidas das montanhas transformaram-se numa massa de energia potentíssima que “explodiu” na baixa da cidade, originando “estilhaços” altamente destrutivos numa parte significativa da zona comercial. Só no comércio, os prejuízos estão calculados em 122 milhões de euros.»
«Um mês depois da catástrofe, a APS anunciava terem sido participados 667 seguros de habitação, 682 de comércio e indústria, 97 de automóvel, 86 de danos próprios devido a fenómenos da natureza e 12 de responsabilidade civil e ocupantes.»
«Porém, o número de participações de seguro automóvel aos seguradores é muito inferior às 500 viaturas que se estima tenham ficado parcial ou totalmente danificadas pelo mau tempo.»
«Poucas horas após as fortes chuvadas, já decorriam os trabalhos de limpeza/recuperação.»
«Mais de 2.000 pessoas, sem incluir as centenas de voluntários que desceram à cidade para ajudar, trabalharam dia e noite, numa luta titânica e unanimemente elogiada por todos quantos visitaram a ilha, (…).»
«Centenas de máquinas convergiram, primeiro para a baixa do Funchal e depois para outros pontos afectados pela intempérie, (…).»
«Só no Funchal foram cerca de 100 mil metros cúbicos de material que se retirou das ribeiras e que se depositou junto à marginal, representando, grosso modo, cerca de dez mil camiões de material transportado (…).»
«Se a quantidade de detritos foi assinalável, não foram menos impressionantes as dezenas de milhões de litros de água retiradas dos parques de estacionamento do Funchal, sobre os quais surgiram boatos da existência de cadáveres no seu interior, versão que, mais tarde, não se viria a confirmar.»
A Madeira com o esforço de cidadania, reergueu-se de forma notável depois de uma intempérie que provocou um dos maiores prejuízos de que há memória na ilha.
Finalmente, e para concluirmos a descrição do temporal de 20 de Fevereiro de 2010, no Arquipélago da Madeira, transcrevemos a explicação do “fenómeno atmosférico”, pelo Instituto de Meteorologia de Portugal, através de uma «informação especial», num comunicado, «válido entre 2010-02-20 18:59:00 e 2010-02-23 23:59:00». Assim, informou o mesmo Instituto que:
«O Arquipélago da Madeira foi afectado no dia 20 de Fevereiro por um sistema frontal de forte actividade associado a uma depressão que às 00UTC estava centrada na região dos Açores e em deslocamento para nordeste. A massa de ar quente associada a este sistema frontal caracterizou-se por elevada instabilidade e transportando um grande conteúdo de vapor de água. Na sua trajectória pela ilha, a orografia constituiu um factor adicional de agravamento do fenómeno.
Esta situação determinou a emissão de avisos de precipitação pelo Instituto de Meteorologia, I. P., a partir do dia 19, às 19h25, elevando-se o nível de severidade ao longo da evolução do fenómeno, tendo sido emitido aviso vermelho o nível mais severo na escala de avisos utilizada pelo IM - às 10 h do dia 20.
Os valores mais elevados de precipitação acumulada numa hora registados nas estações Funchal - Observatório e Pico do Areeiro foram respectivamente 52 mm (entre as 9 e as 10 h) e 58 mm (entre as 10 e as 11 h). Entre as 6 e as 11h registaram-se 108 mm e 165 mm nas estações mencionadas. O valor acumulado em 6 horas na estação Funchal - Observatório foi superior ao valor normal de 30 anos (1961-1990). Instituto de Meteorologia de Portugal».

Sítios do Trapiche e da Barreira - Santo António - Funchal
(A elevada precipitação e o subsequente aumento de águas pluviais, vindas do Caminho da Barreira provocaram a derrocada ao centro. Esta, arrastou duas viaturas em direcção ao Ribeiro do Trapiche. Numa delas fugiam 03 pessoas - um casal e uma filha. Um morto e dois feridos, foi o resultado deste incidente. Foto do autor)

Apesar de os jornais regionais, anunciarem que o temporal se aproximava do arquipélago madeirense e que todos os dispositivos de protecção civil estavam em alerta, nada fazia prever o grau do desastre.
A aluvião do 20 de Fevereiro de 2010, irá imortalizar-se na memória dos madeirenses como uma das maiores catástrofes ocorridas na Madeira.
A geração afectada pela intempérie, sempre que chover, terá presente no subconsciente colectivo que uma nova pode surgir a qualquer momento, enquanto essa memória não se apagar.
Esperamos que essa memória não se apague e que se aprenda que a Natureza é superior, imprevista e incontornável.
Embora este não seja o sítio para comentários, pois, não é esse o objectivo desta "página", aguardamos que alguns equívocos cometidos e assumidos, sejam corrigidos e que a história destes fenómenos que ocorrem no arquipélago madeirense, esteja sempre presente na "secretária" de quem é técnico, especialista ou tenha o "poder de decisão", seja ela, técnica ou política.
Das 43 mortes em consequência da aluvião de 20 de Fevereiro de 2010 que afectou a Madeira, 14 pessoas morreram no vale onde percorre o Ribeiro do Trapiche, rodeado pelos sítios do Trapiche, da Barreira, do Poço do Morgado, do Curral Velho e do Laranjal: área geográfica onde reside o autor.

Ribeiro do Trapiche - Santo António - Funchal
(A elevada precipitação e o subsequente aumento de águas pluviais, vindas do Caminho do Curral Velho - sítio do Laranjal - impeliram sobre um aterro das obras em execução da Cota 500. A enxurrada abateu-se sobre um reservatório de água, que ao eclodir, “empurrou” uma grua que se abateu sobre duas casas. A grua caiu no sentido oposto à direcção do vento que no momento era de sudoeste. Este incidente, provocou 05 mortos e 03 feridos. Foto do autor)

- 09 de Abril. O Instituto de Meteorologia (IM) informou que se «registou» no dia 9 de Abril, a ocorrência de sismos ao largo do concelho do Porto do Moniz. Apenas foram sentidos pelos sismógrafos, sendo registados pelas 10h40 e 14h47, tendo a sua magnitude sido estabelecida em 3,4 e 1,9 (Richeter). O epicentro do sismo de maior magnitude foi localizado a cerca de 40 km a NW do Porto do Moniz.


* * *

(1) Tendo em referência um artigo publicado pelo Gabinete de Relações Externas do Instituto de Meteorologia, a 7 de Outubro de 2003, por ocasião do “Dia Internacional Para Redução dos Desastres Naturais”, comemorado anualmente a 8 de Outubro, e segundo o mesmo, […] «atendendo a que o Instituto de Meteorologia (IM) é a instituição portuguesa que tem por atribuições, entre outras, a vigilância meteorológica e sismológica, considera-se importante divulgar o tema deste dia» […], «na esperança de que seja dado eco às preocupações do IM nesta matéria». Assim, do mesmo artigo, retiramos a definição de desastre, «segundo a terminologia internacionalmente adoptada no glossário de termos básicos relativos à Gestão de Desastres», que é a seguinte: «grave perturbação do funcionamento de uma sociedade, que provoca prejuízos humanos, materiais ou ambientais em grau tão elevado que a sociedade afectada fica incapacitada de lhe dar resposta por meios próprios.»
Ainda segundo o mesmo artigo supracitado, os “Desastres Naturais” podem ser classificados de acordo com a sua causa ou origem (natural ou humana), sendo os de origem natural agrupados em duas categorias: desastres naturais súbitos ou prolongados. Os súbitos, podem ser de origem geológica ou hidrometeorológica. Os primeiros, têm origem nos sismos, nos deslizamentos de terras, nas avalanchas, na actividade vulcânica e nos “tsunamis”. Os segundos têm origem, nas cheias, no vento forte (ciclones tropicais, furacões e tufões), nos tornados, nas tempestades locais e situações extremas de calor ou frio. Os desastres naturais prolongados, são «por exemplo, seca, fome (escassez de alimentos acompanhada de má nutrição e respectivas consequências), doenças epidémicas.» […]. (Fonte)
Neste contexto, os acontecimentos acima relacionados e relatados, só alguns é que poderão ser considerados “Desastres Naturais”.
(Artigo actualizado em 20 de Maio de 2010)

Bibliografia:

CARITA, Rui (1982). Paulo Dias de Almeida, Tenente Coronel do Real Corpo de Engenheiros e a Descrição da Ilha da Madeira de 1817/1827. Secretaria Regional de Turismo e Cultura - Direcção Regional dos Assuntos Culturais. Funchal. pp. 54 e 76.
CARITA, Rui (1991). História da Madeira (1566-1600): A Crise da 2.ª Metade do séc. XVI. Secretaria Regional da Educação, Juventude e Emprego. 2.º Volume. Funchal. pp. 458.
GONÇALVES, Ângela Borges e NUNES, Rui Sotero (1990). Adenda às Ilhas de Zargo. Câmara Municipal do Funchal. Funchal.
JUNTA Geral do Distrito Autónomo do Funchal. Boletim N.º 12 de Dezembro de 1958. Funchal.
INSTITUTO DE METEOROLOGIA (2003). Dia Internacional Para Redução dos Desastres Naturais - 8 de Outubro de 2003. Gabinete de Relações Externas. Lisboa.
PEREIRA, Eduardo C. N. (1989). Ilhas de Zargo. 4.ª Edição. Câmara Municipal do Funchal. Funchal.
QUINTAL, Raimundo (1999) Aluviões da Madeira: Séculos XIX e XX. Artigo publicado na “Territorium” (6.1999), Revista de Geografia Aplicada no Ordenamento do Território e Gestão de Riscos Naturais. Editora Minerva. Coimbra. pp. 31 a 48.
SARMENTO, A. Arthur (1953). Freguesias da Madeira. 2.ª Edição, Junta Geral do Distrito Autónomo do Funchal. Funchal.
SERVIÇO Cartográfico do Exército (1974). Carta Militar. Serie P 821. Edição 1 - S. C. E. P. (Trabalhos de Campo de 1965). Lisboa.
SILVA, João Baptista, ALMEIDA, Fernando e GOMES, Celso (2003-2005). Impacte Ambiental provocado pela construção subterrânea na baixa citadina do Funchal. Universidade de Aveiro. [Artigo efectuado na sequência de uma Conferência organizada e promovida pelo Diário de Notícias sobre o tema “Monumentos e edifícios do concelho do Funchal: avaliação da degradação e das patologias dos materiais geológicos”, que decorreu no Auditório do Museu da Electricidade e Casa da Luz, em 14 de Abril de 2003 e, de um conjunto de trabalhos de campo que os autores realizaram no período 1999 - 2005.]
SILVA, Padre Fernando Augusto da e MENESES, Carlos Azevedo de, (1984). Elucidário Madeirense. Fac-símile da edição de 1946. Secretaria Regional de Turismo e Cultura - Direcção Regional dos Assuntos Culturais. Funchal.
Jornais Regionais: Diário de Notícias e Jornal da Madeira.
Links: INSTITUTO DE METEOROLOGIA. Sismologia - Comunicados.
UNIVERSIDADE DOS AÇORES - Observatório Vulcanológico e Sismológico - Centro de Vulcanologia e Avaliação de Riscos Geológicos.
UNIVERSIDADE DO ALGARVE - Faculdade de Ciências do Mar e do Ambiente - Elementos de Apoio preparados por J. Alveirinho Dias.
REGIÃO AUTÓNOMA DA MADEIRA - Agência Regional da Energia e Ambiente. Plano Regional da Política do Ambiente (Caracterização Base/Caracterização Geral do Estado do Ambiente/Riscos Naturais e Induzidas pelo Homem pdf).

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