08/03/2010

A Aluvião de 20 de Fevereiro de 2010: algumas reflexões

Serra de Água - Ribeira Brava
(Após a aluvião de 20 de Fevereiro de 2010 - foto do autor.)

Não sendo prerrogativa deste simples sítio relatar temas já tratados em anteriores páginas, não poderemos deixar de relembrar um acontecimento que directamente e indirectamente nos fez alterar a nossa vivência no dia a dia. Assim, por aqui se repetem as palavras escritas que a memória ainda não esqueceu:

Depois de algum tempo após a catástrofe que se abateu sobre a Madeira, todos nós sabemos o que se passou naquela fatídica manhã de 20 de Fevereiro de 2010!
No dia 19 de Fevereiro, o Jornal da Madeira dava conta das condições meteorológicas do dia anterior. Assim, podíamos ler no mesmo jornal que, «entre as 9 horas do dia 17 e as 17 horas do dia» de 18 de Fevereiro (quinta-feira), «o Observatório Meteorológico do Funchal registou uma rajada da ordem dos 159,1 km/h, em São Jorge. Também no Caniçal, registo para uma outra de 155,1 Km/h, sendo que no Areeiro os aparelhos marcaram 139,6 Km/h. No Porto Santo, o vento chegou aos 100,8 km/h.
No que toca à chuva, as estações do Areeiro e Calheta/Ponta do Pargo registaram a quantidade máxima de precipitação acumulada em 10 minutos. No primeiro, às 8:50 horas de ontem os aparelhos marcavam 6,2 mm, sendo que no segundo, às 20:30 horas de quarta, eram contabilizados 6,1 mm.
Quanto à precipitação acumulada, a estação do Areeiro atingiu os 128,2 mm, enquanto que a da Calheta/Ponta do Pargo ficou-se pelos 73,9 mm. O Porto Santo registou 65,8 mm.
Uma referência ainda para as temperaturas, sendo que a mínima foi de 1,5 graus Celsius no Areeiro (às 9:40) e a máxima de 18,7 no Funchal (15:30 horas).»
«Para os próximos dias» (…), «não são esperadas grandes melhorias.» (…). «Depois, no sábado, voltam os aguaceiros, com o vento a soprar forte.»
Ainda segundo o mesmo jornal, as «previsões da Meteorologia» apontavam para «chuva e vento por vezes muito forte a partir da tarde de hoje» (19 de Fevereiro) «e ainda trovoada, sobretudo na encosta a sul. Cerca de 70 homens preparados para acudir o Funchal (…).» E, continuando a ler o mesmo jornal, apercebíamo-nos que todos os dispositivos e meios de protecção civil municipais do arquipélago estavam de prevenção, face às condições atmosféricas previstas para o dia 20 de Fevereiro (sábado).

Sítios, do Trapiche, da Barreira, do Curral Velho, do Poço do Morgado e Ribeiro do Trapiche - Santo António - Funchal
(A elevada precipitação e o subsequente aumento de águas pluviais, vindas do Caminho do Curral Velho, provocaram a derrocada no centro da foto. Esta atingiu duas casas e originou 04 mortos. Em frente das mesmas, dois deslizamentos que se transformaram em enxurrada, junto ao Ribeiro do Trapiche, causaram o desaparecimento de 03 pessoas. Mais a montante - à esquerda da foto - uma outra derrocada fez um morto. Foto do autor.)

Pela noite dentro de 19 de Fevereiro (sexta-feira), chovia copiosamente e o caudal dos ribeiros e ribeiras remoçavam num ruído permanente não deixando dormir quem desconfiava do que podia acontecer com os efeitos da precipitação contínua nas montanhas da Ilha, para além de ainda estarem presentes os últimos temporais de 22 Dezembro de 2009 e 02 de Fevereiro de 2010. Toda à noite choveu!
Na manhã do dia 20 de Fevereiro (sábado), pelas 08H00, a chuva continuava e parecia que nunca mais parava! Pelas 09H00, ainda chovia mais! E, ainda pelas 10H00 a água aparecia por todo lado e não havia modo de conter o caudal pluvial. Tudo, estava mergulhado em água castanha, que de clara, logo se tornou mais escura, com o odor a terra vegetal, fazendo-nos recordar outros fenómenos idênticos no passado recente.
De repente, não é que o «turbilhão», já descia as encostas e atingia os vales e aumentava cada vez mais, arrastando tudo o que encontrava pela frente: terrenos, casas, carros e gritos de gente aflita!
As águas lamacentas galgaram pontes e as estradas tornaram-se ribeiras, instalando o pânico nas pessoas que conduziam carros sem controlo, empurrados muitas vezes no sentido inverso à marcha em que prosseguiam.
Os telemóveis por vezes não funcionavam, e mesmo com alguma insistência, os avisos não chegavam aos destinatários, para o perigo que podiam correr nas partes mais baixas.
O ruído da enxurrada apagava tudo à sua volta, e por incrível possa parecer, só os gritos humanos o ultrapassavam. Por fim, o silêncio humano fazia temer o pior. E o pior aconteceu mesmo à nossa frente, sem podermos fazer nada!
E, assim talvez aconteceu a pior catástrofe dos últimos 200 anos na Madeira, que afectou em particular os concelhos: do Funchal (a baixa da cidade e as zonas altas das freguesias, do Monte e de Santo António), da Ribeira Brava (nas freguesias, da Tabua e da Serra de Água), de Câmara de Lobos (nas freguesias, do Curral das Freiras e do Jardim da Serra), de Santa Cruz (nas freguesias, da Camacha e do Caniço), e até mesmo, os concelhos da Ponta do Sol e da Calheta (nas freguesias, da Madalena do Mar, do Arco da Calheta, do Jardim do Mar e do Paul do Mar).
Toda a vertente sul da Madeira, foi afectada pela intempérie de 20 de Fevereiro de 2010, e, não vamos particularizar acontecimentos ou factos, pois ao enunciá-los todos, não nos caberia neste espaço.

Sítios do Trapiche e da Barreira - Santo António – Funchal
(A elevada precipitação e o subsequente aumento de águas pluviais, vindas do Caminho da Barreira, provocaram os deslizamentos que se podem ver na foto. As enxurradas, seguiram em direcção ao Ribeiro do Trapiche - sítio do Poço do Morgado - embateram numa habitação, originando o desaparecimento de uma mãe, filha e uma amiga, já citadas na legenda da foto anterior. Foto do autor.)

O balanço à aluvião que atingiu a Madeira, a 20 de Fevereiro e segundo dados oficiais, que podem ser lidos no Jornal da Madeira, de 01 de Maio de 2010, o «balanço oficial» da intempérie de 20 de Fevereiro de 2010, que «morreram 43 pessoas, oito permanecem desaparecidas, 120 ficaram feridas e 800 habitações sofreram danos, 400 das quais com perda total ou a precisar de uma intervenção profunda, num prejuízo avaliado em 36 milhões de euros». A «Comissão Paritária Mista, criada mais tarde por elementos dos governos Regional e da República, definiu o valor dos prejuízos em 1.080 milhões de euros, mais 300 milhões do que a estimativa feita uma semana depois do temporal pelas autoridades regionais. Ainda assim, o equivalente à construção de dois aeroportos da Madeira.»
«Além das perdas de vidas e casas, vários serviços ficaram seriamente afectados pela intempérie, nomeadamente os transportes e as comunicações. As dificuldades em realizar chamadas telefónicas, especialmente no dia da catástrofe, foram particularmente dramáticas para quem não sabia onde estavam os seus familiares.»
«No dia 20, os problemas foram em quase todas as áreas. O abastecimento de água ficou afectado nas zonas altas de Santo António, no Curral das Freiras, no Monte, na Ponta do Sol, na Ribeira Brava e em vários outros pontos espalhados pela ilha, bem como o fornecimento de electricidade foi interrompido em zonas do Curral das Freiras, da Ribeira Brava e da baixa do Funchal.»
«O sistema de saneamento básico também ficou seriamente atingido. Só no Funchal os prejuízos no sistema de esgotos foram de 12,5 milhões de euros, de acordo com a Câmara Municipal do Funchal.»
«Os valores totais globais nestes sectores são, contudo, bem superiores. Segundo a Comissão Paritária Mista, as redes de abastecimento de água, do saneamento e electricidade, edifícios e equipamentos públicos e protecção civil/socorro tiveram danos na ordem dos 71 milhões de euros.»
«Porém, a área mais afectada pelo temporal de 20 de Fevereiro foi, obviamente, a hidrologia (ribeiras, pontes, muralhas, canalizações, reposição de pontes e acessos, entre outros), com custos de 488 milhões de euros.»
«As estradas da ilha foram também atingidas, sendo necessários cerca de 236 milhões de euros para recuperá-las, enquanto que os portos e litoral vão precisar de 127 milhões de euros.»
«O comércio foi outro dos sectores gravemente afectados. A água, pedras e lama trazidas das montanhas transformaram-se numa massa de energia potentíssima que explodiu na baixa da cidade, originando “estilhaços” altamente destrutivos numa parte significativa da zona comercial. Só no comércio, os prejuízos estão calculados em 122 milhões de euros.»
«Um mês depois da catástrofe, a APS anunciava terem sido participados 667 seguros de habitação, 682 de comércio e indústria, 97 de automóvel, 86 de danos próprios devido a fenómenos da natureza e 12 de responsabilidade civil e ocupantes.»
«Porém, o número de participações de seguro automóvel aos seguradores é muito inferior às 500 viaturas que se estima tenham ficado parcial ou totalmente danificadas pelo mau tempo.»
«Poucas horas após as fortes chuvadas, já decorriam os trabalhos de limpeza/recuperação.»
«Mais de 2.000 pessoas, sem incluir as centenas de voluntários que desceram à cidade para ajudar, trabalharam dia e noite, numa luta titânica e unanimemente elogiada por todos quantos visitaram a ilha, (…).»
«Centenas de máquinas convergiram, primeiro para a baixa do Funchal e depois para outros pontos afectados pela intempérie, (…).»
«Só no Funchal foram cerca de 100 mil metros cúbicos de material que se retirou das ribeiras e que se depositou junto à marginal, representando, grosso modo, cerca de dez mil camiões de material transportado (…).»
«Se a quantidade de detritos foi assinalável, não foram menos impressionantes as dezenas de milhões de litros de água retiradas dos parques de estacionamento do Funchal, sobre os quais surgiram boatos da existência de cadáveres no seu interior, versão que, mais tarde, não se viria a confirmar.»
A Madeira com o esforço de cidadania, reergueu-se de forma notável depois de uma intempérie que provocou um dos maiores prejuízos de que há memória na Ilha!
Finalmente, e para concluirmos a descrição do temporal de 20 de Fevereiro de 2010, no Arquipélago da Madeira, transcrevemos a explicação do «fenómeno atmosférico», pelo Instituto de Meteorologia de Portugal, através de uma «informação especial», num comunicado, «válido entre 2010-02-20 18:59:00 e 2010-02-23 23:59:00». Assim, informou o mesmo Instituto que:
«O Arquipélago da Madeira foi afectado no dia 20 de Fevereiro por um sistema frontal de forte actividade associado a uma depressão que às 00UTC estava centrada na região dos Açores e em deslocamento para nordeste. A massa de ar quente associada a este sistema frontal caracterizou-se por elevada instabilidade e transportando um grande conteúdo de vapor de água. Na sua trajectória pela ilha, a orografia constituiu um factor adicional de agravamento do fenómeno.
Esta situação determinou a emissão de avisos de precipitação pelo Instituto de Meteorologia, I. P., a partir do dia 19, às 19h25, elevando-se o nível de severidade ao longo da evolução do fenómeno, tendo sido emitido aviso vermelho o nível mais severo na escala de avisos utilizada pelo IM - às 10 h do dia 20.
Os valores mais elevados de precipitação acumulada numa hora registados nas estações Funchal - Observatório e Pico do Areeiro foram respectivamente 52 mm (entre as 9 e as 10 h) e 58 mm (entre as 10 e as 11 h). Entre as 6 e as 11h registaram-se 108 mm e 165 mm nas estações mencionadas. O valor acumulado em 6 horas na estação Funchal - Observatório foi superior ao valor normal de 30 anos (1961-1990). Instituto de Meteorologia de Portugal.»

Sítios do Trapiche e da Barreira - Santo António - Funchal
(A elevada precipitação e o subsequente aumento de águas pluviais, vindas do Caminho da Barreira provocaram a derrocada ao centro. Esta, arrastou duas viaturas em direcção ao Ribeiro do Trapiche. Numa delas fugiam 03 pessoas - um casal e uma filha. Um morto e dois feridos, foi o resultado deste incidente. Foto do autor.)

Apesar de os jornais regionais, anunciarem que o temporal se aproximava do arquipélago madeirense e que todos os dispositivos de protecção civil estavam em alerta, nada fazia prever o grau do desastre!
A aluvião do 20 de Fevereiro de 2010, irá imortalizar-se na memória dos madeirenses como uma das maiores catástrofes ocorridas na Madeira!
A geração afectada pela intempérie, sempre que chover, terá presente no subconsciente colectivo que uma nova pode surgir a qualquer momento, enquanto essa memória não se apagar!
Esperamos que essa memória não se apague e que se aprenda que a Natureza é superior, imprevista e incontornável!
Embora este não seja o sítio para comentários, pois, não é esse o objectivo desta «página», aguardamos que alguns equívocos cometidos e assumidos, sejam corrigidos e que a história destes fenómenos que ocorrem no arquipélago madeirense, esteja sempre presente na «secretária» de quem é técnico, especialista ou tenha o «poder de decisão», seja ela, técnica ou política!
Não é só os estudos geológicos e outros, que contam para a concepção de determinados projectos de infra-estruturas!? Este comentário é consequência de quem foi vítima colateral da intempérie dia 20 de Fevereiro de 2010, em virtude de ter a sua residência sob um viaduto em construção da Cota 500!
No exercício de cidadania, os alertas chegaram verbalmente aos responsáveis, muito antes das primeiras chuvas de Outubro de 2009. Ainda tivemos os exemplos dos temporais de Dezembro de 2009 e Fevereiro de 2010. Igualmente, por diversas vezes, alertamos para os perigos eminentes. Entretanto, tudo parecia ser exagero do autor! O facto é que, se o mesmo não efectuasse prevenção, desviando as águas que percorriam na supracitada Cota 500 a montante da sua habitação a partir da madrugada do dia 20, actualmente, não teria a família nem a residência intacta. Outros vizinhos não tiveram essa mesma sorte!
Que a memória dos falecidos pese na consciência daqueles que deviam ter a responsabilidade cívica da prevenção!

Das 43 mortes em consequência da aluvião de 20 de Fevereiro de 2010 que afectou a Madeira, 14 pessoas morreram no vale onde percorre o Ribeiro do Trapiche, rodeado pelos sítios do Trapiche, da Barreira, do Poço do Morgado, do Curral Velho e do Laranjal: área geográfica onde reside o autor!

Ribeiro do Trapiche - Santo António - Funchal
(A elevada precipitação e o subsequente aumento de águas pluviais, vindas do Caminho do Curral Velho - sítio do Laranjal - impeliram sobre um aterro das obras em execução da Cota 500. A enxurrada abateu-se sobre um reservatório de água, que ao eclodir, “empurrou” uma grua que se abateu sobre duas casas. A grua caiu no sentido oposto à direcção do vento que no momento era de sudoeste. Este incidente, provocou 05 mortos e 03 feridos. Fotos do autor.)




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