13/05/2007

Rochas e Sedimentos do Arquipélago da Madeira

Pináculo - Paul da Serra - Madeira
(Geomonumento basáltico, junto à Bica da Cana - foto do autor)


Nas ilhas do arquipélago madeirense, existe uma enorme diversidade e complexidade de extractos vulcânicos, representados por alternâncias desiguais de derrames de lavas ou escoadas e acumulação de materiais piroclásticos (fragmentos lávicos), construídos pela actividade dos vulcões e destruídas pelos agentes erosivos ao longo de milhões de anos. As formações sedimentares existentes são de extensões reduzidas e correspondem a períodos de acalmia dessa mesma actividade vulcânica, criando em alguns casos, condições de formações de depósitos de calcários marinhos de origem fossilífera recifal.

Formações rochosas (eolionitos) - Fonte da Areia - Porto Santo
(Foto do autor)


Fajã das Bebras - Câmara de Lobos - Madeira
(A sua
formação teve início a 4 de Março, de 1930 - foto do autor)

Geologicamente o arquipélago é constituído por rochas ígneas que resultaram do arrefecimento dos magmas. Estas rochas vulcânicas, extrusivas ou vulcanitos, são muito compactas, ou igualmente porosas e vacuolares, e estão apostas à duração dos «acontecimentos vulcânicos e à separação do centro de emissão», expondo inclinações diversas nas ilhas, onde apresentam «escoadas basálticas de espessuras variáveis» (Gomes e Silva, 1997). Georges Zbyszewski (et al., 1975), para além de outros especialistas da geologia insular, classificou as rochas vulcânicas existentes no arquipélago, sobretudo em basaltos, basanitos, basanitóides, hawaiitos, mugearitos, gabros e essexitos, e outras de composição intermédia do tipo traquítico (rochas ácidas) designadas por, traquito, traquibasalto, tranquiandesito e traquidolerito.

 Escoada de "lava em almofada" - Zimbralinho - Porto Santo
(Foto do autor)

 Disjunção colunar - Foz da Ribeira do Faial
(Foto do autor)

Actualmente, os especialistas classificam as rochas vulcânicas, extrusivas ou vulcanitos mais comuns, por basaltos, andesitos, riolitos, traquitos, fonólitos, traquiandesitos e traquibasaltos. Esta classificação, depende da análise microscópica, porque qualquer amostra a olho nu, que julgamos ser basalto, pela sua constituição mineralógica, pode não o ser. Neste âmbito, e relativamente à ilha do Porto Santo, diz-nos João Baptista Pereira Silva: «A actividade dos vários aparelhos vulcânicos deu origem a diversos vulcanitos (incluindo domos) e piroclastos consolidados em tufos sob a forma de escórias. Os vulcanitos, incluindo os domos, são agrupados em dois grupos “Basaltos e Andesitos” e “Traquitos e Riolitos”. Os Picos constituídos por rochas de cor escura, correspondem a “Basaltos e Andesitos”, enquanto que noutros picos constituídos com rochas de cor clara, estas correspondem a “Traquitos e Riolitos”.» (Areia de Praia da Ilha do Porto Santo: Geologia, Génese, Dinâmica e Propriedades Justificativas do seu Interesse Medicinal. Madeira Rochas - Divulgações Científicas e Culturais. 2003).

"Escoada basáltica" - Ribeira do Seixal - Madeira
(Foto do autor)


"Vulcanitos" - Porto Santo
(Foto do autor)

Os materiais piroclásticos (fragmentos lávicos), resultante da actividade vulcânica explosiva, consolidados ou sedimentados, em tufos sob a forma de escórias, são grosseiros e desordenados, de aspecto «vesicular e esponjoso», por vezes pouco consistentes. Estes materiais ostentam uma composição basáltica e distinguem-se uns dos outros pelo seu tamanho. Os finos são designados por tufos e cineritos, de cor vermelha, castanha, amarela ou cinzenta, depositados ou não, em aparelhos vulcânicos ou cones de escórias. Os grosseiros denominam-se por, blocos, bombas, brechas e outros aglomerados, (Gomes e Silva, 1997). As rochas da Madeira são de constituição idêntica às das Desertas, até porque estas fazem parte do mesmo edifício vulcânico.

 Tufos - Deserta Grande
(Foto do autor)


 Disjunção colunar - Selvagem Grande
(Foto do autor)


As formações sedimentares no arquipélago têm a sua maior expressão no Porto Santo e nas Selvagens. Estas, pela circunstância de conterem fósseis, são relevantes para o estudo da história geológica das ilhas. Os sedimentos terrestres circunscrevem-se a aluviões, fajãs, depósitos de vertente e de enxurrada, derrocadas ou “quebradas” e dunas fósseis. Os sedimentos marinhos, por outro lado, resumem-se a conglomerados, calcários e calcarenitos fossilíferos, cascalheiras e areias de praia. Estas, de origem fonolítica e basáltica, nas praias da Madeira e das Desertas, e organogénicas calcárias, nas ilhas do Porto Santo e das Selvagens.

Praia de calhaus e areia (fonolítica e basáltica) - S. Vicente - Madeira
(Foto do autor)


Praia de areia (organogénica calcária) - Porto Santo
(Foto do autor)

Os depósitos de calcários, existentes no arquipélago são constituídos por conglomerados, que se crê estarem na base de depósitos sedimentares marinhos com vestígios de calcários fossilíferos que são mais expressivos no sítio dos Lameiros em São Vicente, na Madeira, e no Ilhéu de Baixo ou da Cal, no Porto Santo. Estes depósitos, no passado foram alvo de exploração para produção de cal. Na Selvagem Grande, as formações calcárias encontram-se “associadas” aos materiais extrusivos e piroclásticos, consequência talvez, da actividade vulcânica intrusiva, onde filões cortaram as antigas formações marinhas de calcários fossilíferos.

Formação calcária - Selvagem Grande
(Foto do autor)


"Calcários Marinhos dos Lameiros" - Sítio dos Lameiros - S. Vicente - Madeira
(Foto e peças do autor)

Na Madeira, existem depósitos conglomeráticos brechóides, que são consequência de uma formação sedimentar constituída por depósitos de enxurradas, bastante compactados e cimentados, formadas pelas chuvas intensas e imutáveis, consequência de um clima no passado, muito diferente do actual. Estes sedimentos, em muitas formações, são constituídos por basaltos com fenocristais de piroxena, basaltos olivínicos e basaltos vacuolares. A maior parte destes sedimentos são restos de prismas de disjunção ou de disjunção em bola, de cor negra-acizentada e variando de grosseiros a finos.

Depósito Conglomerático Brechóide - Ponta Delgada - Madeira
(Foto do autor)

Depósito aluvionar (aluvião) - Ribeira da Ponta do Sol - Madeira
(Foto do autor)

Segundo Carvalho e Brandão (1991), «o carácter fortemente acidentado da ilha da Madeira é, em grande parte, consequência da erosão. Com efeito, os vales profundos, os picos alterosos elevando-se acima da capa de nuvens, os precipícios tão frequentes ao longo das estradas e caminhos, as gargantas apertadas, são o resultado de erosão pelas águas superficiais, no geral, torrenciais, que escavam profundos rasgões, mais acentuados nos materiais piroclásticos, deixando paredes abruptas que frequentemente desabam, por acção da gravidade e por instabilidade grandemente aumentada por infiltração de águas em terrenos tão brandos e permeáveis.»
Segundo Ribeiro (1949 e 1985), citado por Carvalho e Brandão (1991), «em virtude do grande vigor do relevo, não há, praticamente, na ilha da Madeira aluviões finas como acontece nos cursos de água com alguma maturidade. Mesmo as ribeiras com evolução mais avançada mostram valores de declive acentuados: 6% na ribeira dos Socorridos, 8% na ribeira Brava, 9% na ribeira da Janela, e 10% na ribeira do Porco» (Boaventura). Ainda segundo os mesmos autores, «o quadro geral é o de torrentes vigorosas e muito activas nas estações pluviosas, com abundante carga sólida, heterométrica, e com grande capacidade de evacuação até ao mar.» E, é próximo das fozes das ribeiras, que encontramos alguns depósitos aluvionares, igualmente, bastante compactados e cimentados.


Material aluvionar
(Foto do autor)

Material argiloso
(Foto do autor)


Ao nível dos solos na ilha da Madeira, estes apresentam-se segundo Carvalho e Brandão (1991), «com certo grau de evolução que ocorrem minerais argilosos de neoformação com algum significado, quer em variedade de espécies, querem termos quantitativos.»
Segundo Furtado (1983), igualmente citado por Carvalho e Brandão (1991), «a natureza das argilas dos solos da Madeira depende de vários factores conjugados entre si, de entre os quais ressaltam a pluviosidade e a temperatura, o tipo de rocha-mãe, a vegetação e, em particular, a altitude e o declive do terreno. Em termos de espécies presentes, estão referidos minerais dos grupos da caulinite (caulinite, haloisite e metahaloisite), da clorite e da montmorilonite, gibbsite e materiais amorfos sílico-aluminosos (halofanas) e ferruginosos. Segundo os autores anteriormente citados, «os fenómenos de alteração actuaram nos vários pontos da ilha com intensidades diferentes, sobretudo em função da litologia, da altitude, dos declives e da orientação da exposição. São frequentes até à cota de cerca de 1 000 m as terras avermelhadas e amareladas, argilosas (massapez, salão); acima destes níveis, parece predominar a lexiviação das rochas que, assim, se tornam esbranquiçadas.»


Solos - Porto Santo
(Foto do autor)


Na ilha do Porto Santo ao nível dos solos, ainda segundo Carvalho e Brandão (1991), «nas partes baixas predominam os abarracamentos numerosos e profundos, com a configuração de bad lands.» Os mesmos autores referem que: «a densa rede filoniana, de natureza essencialmente basáltica, associada aos depósitos sub-horizontais de bentonite, constitui o suporte responsável pela preservação destes materiais brandos, face aos agentes de erosão.»


Idem foto anterior
(Foto do autor)

O subsolo do arquipélago é pobre em produções minerais. As formações basálticas, por serem de origem extrusiva, apresentam uma textura afanítica e microcristalina. Contudo, através de um sumário estudo macroscópico às as rochas vulcânicas, extrusivas ou vulcanitos, poderemos encontrar minerais, como a augite, a olivina e a plagioclase, nos basaltos. Estes minerais encontram-se nas fendas ou fracturas e em bolhas formadas por gases no interior dos mesmos. Em bolhas maiores, ovóides, desenvolveram-se, por vezes, geodes, onde cristalizou, a exsudada da massa basáltica pelo arrefecimento, a aragonite, conhecida pelo nome de “madre de pedra” (Elucidário Madeirense), por se encontrar no interior da rocha.


Arogonite ou "madre de pedra"
(Origem, Paul da Serra - foto e peça do autor)

(Origem, Paul da Serra - foto e peça do autor)

Nos vulcanitos, também encontramos o zeólito, em cristais aciculares, transparentes e de brilho vitríneo. Ainda no subsolo, poderemos encontrar linhite em depósitos, associada a camadas de tufo e argila e limonite em concreções. Pequenos cristais de sanidina e magnetite, poderemos igualmente encontrar, em rochas ácidas do tipo traquítico. Em menor quantidade, a apatite, o óxido de ferro, etc. Na superfície e nas fracturas dos vulcanitos, encontramos estes, revestidos de uma camada pardacenta, ou igualmente acastanhada, devido às alterações de minerais de composição de óxido de ferro, segundo (Sarmento, 1953).
Segundo o mesmo autor, citado no parágrafo anterior (1941), «encontra-se no arquipélago grande quantidade de ferro, apenas em diminutos filões, como as lindas lâminas de ferro especular na rocha sobranceira ao cais da Ponta do Sol e em revestimentos internos de canais de lava, como nas furnas do Cavalum, em Machico, e na dos Cardais, em S. Vicente.»

Junto ao Cais do Porto da Cruz - Machico - Madeira
(Foto do autor)

(Tufos estratificados ou tufitos. No cimo, aflora uma rocha vulcânica clara designada por mugearito, que apresenta formas esferóidais separadas por material ferruginoso, resultante da meteorização, segundo o geólogo alemão C. Gagel. Estudos sobre a geologia da Madeira, publicado nos Anais da Deutsche Geologische Gesellschaft. Berlim, 1912-13, Alberto Artur Sarmento, Freguesias da Madeira, 1953.)


Rochas vulcânicas - Ribeira Brava - Madeira
(Foto do autor)

Ainda segundo o mesmo autor, «é o ferro que dá a cor pardacenta dos revestimentos dos blocos de basalto, a cor vermelha ás terras chamadas de massapês e ainda as laterites que listam as rochas, especialmente no litoral, intercalado entre as assentadas basálticas.» Este, «encontra-se granular entre tufos nos Canhas, celular na Madalena do Mar, e lamelar sobre argilas em Santana e S. Jorge, com a aparência de sucata e em dissolução na água de algumas fontes», (Sarmento, 1941).
Neste contexto, Paulo Dias de Almeida na sua “Descrição da Ilha da Madeira” (1817 - 1827), conta-nos que na freguesia dos Canhas, «há a excelente Quinta do Carvalhal, onde se conservam antigos arvoredos e uma muito boa fonte de águas férreas. Foi nesta quinta, que na ocasião em que andava levantando o Plano da Ilha, observei que a bússola não tinha movimento e que uma atracção a fazia procurar a terra», (Carita,1982).


"Rocha sobranceira ao cais da Ponta do Sol"
(Foto do autor)

Disjunção esferóidal - Baía d' Abra - Caniçal - Madeira
(Foto do autor)


Na Madeira, existe um “filão” (depósito) de carvão mineral, na freguesia da Ilha, concelho de Santana. Encontra-se a 360 metros de altitude, no Ribeiro do Meio, afluente da ribeira de São Jorge (Sarmento, 1953).
Estes recursos minerais a nível do subsolo não são explorados na Madeira, por apresentarem uma textura afanítica e microcristalina, como já dissemos anteriormente, por não terem viabilidade económica, pela inexistência de grandes concentrações e pela sua dispersão no espaço insular.
Actualmente no arquipélago, os recursos geológicos com valor económico resumem-se à exploração de pedreiras de rochas vulcânicas (para aplicação ornamental e de britas para utilização na construção civil) e exploração de inertes submarinos (areias).


***
 
Rochas e Sedimentos da Madeira e do Porto Santo - Utilização e Aplicação


Aplicação de cantarias "rijas" - "Casa das Mudas" - Calheta - Madeira
(Foto do autor)

Nas ilhas do arquipélago da Madeira, segundo Carvalho e Brandão (1991), maioria das formações geológicas, cujas rochas vulcânicas são utilizadas e aplicadas como pedra natural e ornamental na Madeira e no Porto Santo, distribuem-se por dois conjuntos distintos. Um primeiro conjunto é constituído por «rochas básicas, efusivas», (ou rochas extrusivas, ou vulcanitos) muito compactas, ou igualmente porosas e vacuolares, designadas popularmente por rochas “faventas”. São conhecidas por cantarias  “duras” ou “rijas” (ou pedras lavradas). Este tipo de «rochas vulcânicas porosas apresenta uma textura uniforme de granularidade fina a média e cor cinzenta, mais ou menos escura», (Gomes e Silva, 1997).

Arcos góticos-manuelinos em cantaria "mole" - Sala Gótica ou Sala Ogival - Torreão do Funchal
(Construção do Séc. XVI - Fortaleza-Palácio de S. Lourenço - foto do autor)

Conjunto de janelas em cantaria "rija" - Madeira
(Janela "manuelina" do séc. XVI e janela "balaustrada" do séc. XX - Fortaleza-Palácio de S. Lourenço - Foto do autor)


Um segundo conjunto, corresponde aos materiais piroclásticos (fragmentos lávicos). São grosseiros e desordenados, resultantes da actividade vulcânica explosiva, consolidados ou sedimentados, encontrando-se em abundância nas zonas centrais da Ilha da Madeira. Estes materiais piroclásticos, «ditos de projecção», existem em grande variedade de materiais, desde enormes blocos a cinzas muito finas, designadas por “feijoco ou fajoco”, “lapilli” e “areão”. São, de aspecto «vesicular e esponjoso», por vezes pouco consistentes e apresentam em certos casos o aspecto de brechas mais ou menos grosseiras e noutros, apresentam-se como tufos. Estes tipos de materiais, são conhecidos popularmente por cantarias “moles”, são de textura mais variada do que as cantarias “rijas” ou “duras” e afiguram-se com tons de vermelho, castanho, amarelo e verde, (Gomes e Silva, 1997).

Variedades de cantaria “mole” regional ou tufo de lapilli - Madeira
(Foto do autor)
 Moinho da Achadinha (utilização de tufo local) - S. Jorge - Madeira
(À direita da foto, "mós" - foto do autor)

Na Ilha do Porto Santo, igualmente, são utilizadas como pedra natural e ornamental, dois conjuntos de vulcanitos. O primeiro conjunto, analogamente, constituído por uma rocha «básica e efusiva» (ou rocha extrusiva, ou vulcanito), apresenta uma cor cinzento claro, sendo de composição traquítica sem porosidade, ostentando por vezes «xenólitos ou encraves de cor mais escura e de contornos circulares» (Gomes e Silva, 1997). São conhecidas popularmente por cantarias “branco sujo do Porto Santo”. Também na Madeira, é extraído um «género petrográfico de composição traquiandesítica», muito parecido, possuindo no entanto algumas diferenças no que respeita ao «aspecto macroscópico», relativamente ao traquito do Porto Santo. Esta rocha, quando utilizada como pedra natural e ornamental, é conhecida nesta ilha como cantaria “branco-sujo do Campanário”. O segundo conjunto do género piroclástico, apresenta-se como tufos de cor castanha avermelhada, igualmente como na Madeira, denomina-se por tufo de lapilli ou cantaria “mole” (Gomes e Silva, 1997).

Habitação do Porto Santo (traquitos e riolitos)
(Foto do autor)

Habitação típica do Porto Santo (reconstruída)
(Foto do autor)

As rochas vulcânicas, extrusivas ou vulcanitos, na Madeira e no Porto Santo, para além de outras aplicações atrás supracitadas, eram utilizadas e aplicadas em forma de blocos nas paredes ou muros, que suportam os socalcos ou “poios” e em paralelepípedos para calcetamento de caminhos. Do “basalto lamelar”, retira-se as lajes empregadas para “pedras mestras” das levadas, lavadouros e pavimentos, calçadas e escadarias, assim como, nos acessos e “terreiros” das casas de habitação. No Porto Santo, usa-se igualmente os traquitos e os riolitos nestas aplicações.


Entrada em "calçada basáltica" - Casa da Vinha - Madeira
(Foto do autor)

Escadaria e muros de suporte em "traquito" do Porto Santo
(Foto do autor)

As rochas do arquipélago madeirense, que originam as cantarias “duras” ou “rijas” e “moles”, não «possibilitam o polimento» (Gomes e Silva, 1997), quando aplicadas como rochas ornamentais nas construções, em revestimentos exteriores ou interiores. As cantarias “moles” de origem piroclástica são vulneráveis aos agentes erosivos. Por outro lado, as cantarias “rijas” ou “duras” afiguram-se mais duradouras e menos expostas a esses agentes. Para além aplicação ornamental, das cantarias “rijas” ou “duras”, na Madeira, no passado, dava-se largo emprego na construção, mós, pias, pizões, moinhos de mão, gamelas ou gamelões para dar de comer aos animais.


Moinho de mão de "pedra faventa" - Quinta do Furão - Santana
(Foto do autor)

Pia e pizão (para cereais) de "pedra faventa"
(Foto e peça do autor)

Na Madeira e no Porto Santo, os materiais piroclásticos designadas de cantaria “mole” (tufos de lapilli) são utilizadas na construção civil, em revestimentos de interiores e exteriores. As cantarias “moles” possuem alguns géneros litológicos, que devido às suas «características isolantes e refracterantes» (Gomes e Silva, 1997), proeminentes para a conservação ou isolamento do calor, são utilizadas na Madeira e no Porto Santo, no fabrico de fornos e chaminés. Devido à sua porosidade, têm também aplicação no fabrico de filtros de água.

Forno e lareira de "tufo de lapilli"
(Foto do autor)


Pedreira de exploração de "tufos de lapilli" - Caniçal - Madeira
(Foto do autor)

Na Madeira, antigamente, nos enormes blocos de queda, na sua maioria constituídos por tufos de “lapilli”, construía-se pequenas habitações, currais, conhecidas por “lapas” (furnas, grutas ou cavidades), assim como, pequenas eiras e lagares. Estas aplicações eram mais comuns nas freguesias da Ribeira Brava, da Serra de Água e Curral das Freiras.
Outros materiais piroclásticos, como bombas e “areões”, igualmente, denominados na Madeira por “feijoco ou fajoco”, tinham emprego como revestimento exterior de tanques e cascatas de jardins e no interior dos tabiques de casas, substituindo as aparas de madeira e outros materiais de origem vegetal.

Blocos de queda de "tufo de lapilli" - Ribeira do Porco - Boaventura - Madeira
(Foto do autor)

Revestimento em “feijoco ou fajoco” (bombas vulcânicas)
(Foto do autor)

No Porto Santo, os telhados e as paredes das casas eram cobertas por uma de argila especial (bentonite), mais conhecida por “salão do Porto Santo”. Este material piroclástico existente em depósitos bentoníticos, de cor esverdeada, são o resultado uma alteração sub-aquática de vulcanitos, segundo os especialistas, e têm propriedades plásticas. Pela acção das chuvas, torna-se impermeável e pela acção do calor solar desagrega-se. Assim, as antigas casas porto-santenses mantinham-se frescas no Verão e quentes no Inverno.

"Salão do Porto Santo" (depósitos de bentonite) - Serra de Dentro
(Foto do autor)



"Casa de salão" (bentonite) - Porto Santo
(Foto do autor)


Das praias Madeira e do Porto Santo, extraíram-se os seixos, conhecidos popularmente por calhaus, de cor negra (de origem fonolítica e basáltica) e de cor branca ou amarela clara, (de origem organogénica calcária), para pavimentos de ruas, dos passeios e acessos das quintas e palácios. Este tipo de calçada perpetuou-se com o nome de “calçada madeirense”, pela utilização dos seixos ou calhaus em contraposição à “calçada portuguesa”, em que se usa a pedra partida de formato irregular, de calcário e de basalto. Na Madeira, os calhaus de origem organogénica calcária existente nas calçadas, tem na sua maioria, origem na vizinha ilha do Porto Santo, designadamente das praias do Ilhéu de Baixo ou da Cal.
Na Madeira, os seixos ou calhaus, “favados ou faventos”, são conhecidos “por pedra de porco”, pela utilização “em esfregar o coiro”, deste animal depois da chamusca com giesta seca, na matança do mesmo por alturas da “Festa” ou do Natal.


Gamela em "pedra faventa" e "pedra de porco"
(Foto e peças do autor)


Calçada madeirense - Pátio interior da Fortaleza-Palácio de S. Lourenço
(Foto do autor)

Desde o início do povoamento do Arquipélago da Madeira, que estes materiais litológicos, foram largamente explorados e usados nas construções das cidades, vilas e restantes povoações, das capitanias do Funchal, de Machico e do Porto Santo. O património geológico natural das ilhas passou a fazer parte do integrante património edificado madeirense e porto-santense. Todos os dias e perto de nós, ao percorremos ruas e caminhos acompanhadas de edifícios, temos à nossa mão todo o espaço geológico insular e não só!

***

Património geológico do Arquipélago da Madeira

Todo o património geológico do arquipélago da Madeira e do sub-arquipélago das Selvagens, constituído por todos os recursos naturais, tais como, as «formações rochosas, acumulações sedimentares, formas, paisagens, caracteres paleontológicos ou colecções de objectos geológicos de valor científico, cultural, educativo e de interesse paisagístico, deve ser protegido».

Formação rochosa - "Cabeça de Cão"
(Vereda - Corrida - Pico Grande - foto do autor)

Neste âmbito a Região Autónoma da Madeira, através do Decreto Legislativo Regional n.º 24/2004/M, publicado no Diário da República, Número 196 I-A Série, de 20 de Agosto de 2004, definiu alguns «objectivos para a conservação e preservação» desse mesmo património geológico, que são os seguintes:

a) Promover uma política de conservação e preservação do património geológico;
b) Identificar, inventariar, classificar, documentar e divulgar os locais de interesse geológico;
c) Promover o conhecimento do património geológico, através da investigação, do estudo e da formação e informação dos recursos existentes;
d) Promover a sensibilização da comunidade para a importância e relevância do património geológico;
e) Definir as áreas de intervenção e os modos de actuação;
f) Promover a defesa dos recursos naturais em articulação com o desenvolvimento de actividades económicas, tais como o ecoturismo e o turismo de natureza.

Formação rochosa - "pedra antropoglifita" - Ponta de S. Lourenço
(Foto do autor)


Este «Decreto Legislativo Regional», supracitado, no seu preâmbulo, alvitra que «o património geológico deve ser salvaguardado, mas também estudado e valorizado», promovendo-se a «acção científica, pedagógica e cultural por todos os intervenientes, de modo a garantir o retorno em termos de benefício científico, cultural e social, bem como assegurar a sua transmissão às gerações futuras».
 

«Cara» ou «Cabeça»
(Achada do Teixeira - Santana - foto do autor)


O mesmo decreto dá como alguns exemplos, as formações geológicas, como o «Homem em pé» e a «Cara» ou «Cabeça», localizados na Achada do Teixeira, no concelho de Santana, o «Arco» e as «Furnas» em basalto, na Tábua, o «Ilhéu» da ribeira da Janela, a «Gruta do cavalum», em Machico, as «Grutas», em São Vicente, o «Frade», no Vale de São Vicente, a «Chaminé» e a «Carapita», no Vale da Boaventura, na Madeira e o «Pico da Ana Ferreira», no Porto Santo.

Formações rochosas - Porto Santo
(Foto do autor)

Algumas destas formações geológicas, têm formas humanóides e são conhecidas no arquipélago por «pedras vivas» ou «pedras antropoglifitas», que correspondem a figuras de seres humanos.
Assim, ainda segundo o mesmo decreto regional, a «melhor maneira de preservar um bem patrimonial comum é fomentar o seu acesso científico, cultural e pedagógico a todos os que possam e queiram usufruir, pelo que urge criar legislação de âmbito regional para assegurar a sua conservação e preservação.»



Bibliografia:

CARITA, Rui (1999). A Arquitectura Militar da Madeira nos Séculos XV a XVII. Universidade da Madeira. Volume I. Funchal - Lisboa.
CARITA, Rui (1982). Paulo Dias de Almeida, Tenente Coronel do Real Corpo de Engenheiros e a Descrição da Ilha da Madeira de 1817/1827. Secretaria Regional de Turismo e Cultura - Direcção Regional dos Assuntos Culturais. Funchal.
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GOMES, Celso de Sousa Figueiredo, e SILVA, João Baptista Pereira (1997). Pedra Natural do Arquipélago da Madeira, Importância Social, Cultural e Económica. Madeira Rochas - Divulgações Científicas e Culturais. Câmara de Lobos.
PEREIRA, Eduardo C. N. (1989). Ilhas de Zargo. 4.ª Edição. Câmara Municipal do Funchal. Funchal.
SARMENTO, Alberto Artur (1941). As Pequenas Indústrias da Madeira. Oficinas do Diário de Notícias. Funchal.
SARMENTO, A. Arthur (1953). Freguesias da Madeira. 2.ª Edição, Junta Geral do Distrito Autónomo do Funchal. Funchal.
SILVA, Padre Fernando Augusto da e MENESES, Carlos Azevedo de (1984). Elucidário Madeirense. Fac-símile da edição de 1946. Secretaria Regional de Turismo e Cultura - Direcção Regional dos Assuntos Culturais. Funchal.
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SILVA, João Baptista Pereira (2007). O Tempo Escrito nas Rochas. Série de Divulgação Científica e Cultural. Editores: RTP - Madeira e Madeira Rochas - Divulgações Científicas e Culturais [DVD Rom Duplo]. Funchal.
QUINTAL, Raimundo (1994). Veredas e Levadas da Madeira. Secretaria Regional e Cultura. Funchal.
QUINTAL, Raimundo (2003). Madeira, a Descoberta da Ilha de Carro e a Pé. 1.ª Edição. Associação dos Amigos do Parque Ecológico do Funchal. Funchal.
QUINTAL, Raimundo (2004). Levadas e Veredas da Madeira. 4.ª Edição. Francisco Ribeiro e Filhos Lda. Funchal.
Links: Secretaria Regional do Ambiente e dos Recursos Naturais. Carta dos Solos da Ilha da Madeira.
e-Geo - Sistema Nacional de Informação Geocientífica

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